Author: Sônia Ramalho de Farias
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Diverso, mas não plural: reconfigurações de um Brasil mestiço em Ariano Suassuna em cotejo com Gilberto Freyre.


Em consonância com certa tendência dominante no sistema intelectual brasileiro, cuja figura exponencial no século XX é Gilberto Freyre, o ideário armorial de Ariano Suassuna pensa a diversidade cultural brasileira sob o prisma da identidade nacional. Esta se configura pela concepção de um Brasil cadinho que reúne “harmônica” e conciliadoramente os três segmentos étnicos constitutivos de nossa formação social: o índio, o negro e o europeu, elementos emblemáticos e definidores da sua concepção de brasilidade, a brasílica nação castanha.
Na obra do sociólogo pernambucano o viés interpretativo da nação brasileira assenta-se numa visão otimista do país, que busca não só rever as teorias racistas e positivistas do séc. XIX, das quais as concepções ambíguas de Silvio Romero acerca da miscigenação1 ainda são devedoras, como pretende redimensionar a perspectiva de alguns autores seus contemporâneos, sobretudo nas décadas de 1920 a 1940, cuja análise, centrada no foco político, avaliava negativamente a colonização portuguesa e a mestiçagem da população brasileira, atribuindo-lhes a responsabilidade “pelos resultados pouco elogiáveis e pela situação secundária do país no cenário das nações”, conforme ressalta Mª Stella Bresciani (In CHIAPPINI E BRESCIANI (orgs): 2002, p. 39). A orientação sócio-antropológica assumida pelo ideário regionalista de Freyre busca, assim, modernizar as premissas orientadoras daquela visão ressentida e pessimista da história brasileira, contrapondo “[...] às teses da má formação do Brasil ou da incompleta definição de sua população a tese de que o país constituiria a mais acabada expressão da vitoriosa possibilidade de se fundar uma civilização nos trópicos” (BRESCIANI In CHIAPPINI E BRESCIANI (orgs): 2002, p.39). Para isso é necessário repensar os fundamentos da nossa colonização, reinterpretando a formação sociocultural brasileira com ênfase na família patriarcal como seu núcleo fundador e redimensionando positivamente a categoria de mestiçagem como amálgama étnico e categoria social em torno da qual, desde o século dezenove, se elabora a construção de uma mítica e decantada identidade nacional, símbolo conotador das “aspirações nacionalistas que se ligam à construção de uma nação brasileira”, no dizer de Renato Ortiz (1985, p.2).
Como já tive a oportunidade de demonstrar em outros escritos (cf. FARIAS. In JOACHIM (org.): 2003, p. 229-240 e FARIAS: 2006), para Freyre a nação brasileira luso-tropical alicerça-se na ideologia cordial asseguradora de uma convivência democratizante entre os três povos que constituem o fundamento da nossa nacionalidade. Esta se delineia pelas inter-relações regionais, raciais e culturais através das quais concebe a nação brasileira, definida pelos “impulsos tropicalizantes” que imprimem sua marca nas diversificadas manifestações artísticas que teriam sido produzidas sob a égide do ideário regionalista expresso no Movimento Regionalista de Recife, na década de 20, conforme explicita em “O movimento Regionalista, tradicionalista e, ao seu modo, modernista do Recife” (FREYRE, 1976, p. 15-16). Fundamentados na defesa dos valores regionais do Nordeste, e mais especificamente do locus patriarcal açucareiro, esses impulsos movem-se, no dizer do autor, no sentido de neutralizar a excessiva subordinação a modelos alienígenas, visando à integração conciliadora das diversas tradições culturais oriundas das diferentes raças responsáveis pela formação da nacionalidade brasileira, mediante “a reinterpretação, a interpretação e a utilização de motivações e de motivos brasileiros, regionais, tropicais que dessem vigor ecológico e visão ecológica das relações do homem com o ambiente regional (FREYRE: 1976, p. 16).
Transpondo, por meio de tais impulsos tropicalizantes, o cromatismo da paisagem brasileira, em especial, da nordestina e dos motivos regionais, para a arte, o autor estende a coloração dos trópicos à sua população. Formula, assim, seu critério de miscigenação étnico-cultural, postulando uma desejável correspondência entre a “tropical ‘vária cor’” da arquitetura recifense (ameaçada, segundo ele, de descaracterizar-se pelo processo de modernização do país) e a “‘vária cor’ de uma população panbrasileira crescentemente miscigenada, e, no Nordeste miscigenadíssima. Morena em vários graus conforme as misturas de sangue, no Nordeste tão abrangentes: juntando aos sangues dos indígenas com que se vinham misturando os europeus desde os começos do século XVI, os sangues negros” (FREYRE, 1976: 35). A partir desse conceito de miscigenação, Gilberto Freyre postula a formação de uma democracia no Brasil: “uma democracia sem privilégios raciais. Através de uma miscigenação abrasileirante ao mesmo tempo que democratizante. Metaracial” [sic] (FREYRE, 1976: 35).
As interpretações do processo de colonização e formação da sociedade brasileira passam a ser filtradas, sobretudo em Casa grande e senzala (1933), por essa concepção democratizante, alicerçada na ideologia da cordialidade. Ela constitui a base para que o autor pense “ternamente” as relações entre senhores e escravos no Brasil colonial, amortecendo, assim, via semântica da confraternização e seus correlatos lingüísticos - harmonização, contemporização e equilíbrio de antagonismos – (cf. FREYRE, 1978, p. 53 54)2 a violência da ação colonizadora no Nordeste escravocrata. Funciona também para ressaltar os efeitos positivos decorrentes do “caráter híbrido” da sociedade brasileira. Nessa perspectiva, o discurso do hibridismo desse intérprete da ordem patriarcal do país não é, ao contrário do que acreditam alguns de nossos ensaístas, nem plural nem polifônico. Não se define como plural porque apaga, pela afirmação da contemporização entre a cultura adventícia e a nativa, entre o branco europeu e o negro e o indígena, as marcas da alteridade e dos conflitos étnico-culturais vivenciados no cenário do Brasil colônia.3. Nem como polifônico porque é enunciado por uma voz que – não obstante dê abertura para a inclusão do outro atribuindo positividade à categoria de miscigenação, identifica-se, não sem oscilações e ambigüidades, à voz do patriarcalismo rural canavieiro, revisitado no contexto de crise que assinala o processo de modernização do país e a conseqüente perda de hegemonia da classe senhorial açucareira. A enunciação discursiva da mestiçagem brasileira aponta, assim, nas malhas textuais de Gilberto Freyre para uma concepção apenas aparentemente plurívoca, mas de fato, unificadora da nossa diversidade, moldando-a numa concepção reducionista e estática de identidade: “uma identidade que anula e subordina a diferença cultural”, nos termos de Stuart Hall (2002, p.59).
A identidade nacional reconfigurada pelo Movimento Armorial de Suassuna, a partir dos anos setenta (mas embrionariamente presente na obra do autor desde suas primeiras peças e entremezes, na década de 40), mantém o eixo estruturador do discurso cordial de Freyre. De forma análoga a este, Ariano pensa a questão da cordialidade como elemento mediador da história brasileira, interpretando-a também pela valoração positiva conferida ao conceito de miscigenação. Desloca, no entanto, o locus regional privilegiado pelo autor de Casa grande e senzala. Tal deslocamento pressupõe o privilégio concedido ao espaço regional do Nordeste pecuário-algodoeiro, o sertão, em contraposição ao Nordeste açucareiro, distinguido no discurso de Freyre como cerne dos autênticos valores nacionais. A reconfiguração do espaço regional pelo dramaturgo do Auto da Compadecida em relação à matriz discursiva freyriana não desconstrói, no entanto, os pressupostos estéticos e ideológicos norteadores da visão de Brasil e de realidade regional do sociólogo de Apipucus. Apenas assinala o lugar sociocultural de onde fala o romancista: o lugar da oligarquia sertaneja em confronto com o segmento regional da classe oligárquica da cana-de-açúcar recortado no discurso de Gilberto Freyre. A delimitação distintiva deste “outro Nordeste” - para utilizar aqui o título da obra de Djacir Menezes (1937) – hegemonicamente configurado no ideário regionalista e na produção literária de Ariano, vem explicitada pela dicção galhofeira do narrador-potagonista, Quaderna, no segundo romance da ainda inconclusa trilogia, História do rei degolado nas caatingas do sertão: ao sol da onça caetana, em diálogo com um dos seus mestres e interlocutores ficcionais, Samuel Wandernes, o “fidalgo dos engenhos”, cujas concepções acerca do espaço regional do Nordeste coincidem com as de Gilberto Freyre:

Aqui para nós, nobres Senhores e belas Damas que me ouvem: eu acho essas cavilações de Samuel a respeito dos “oiôs” e “Sinhazinhas, sobre os bolos e as baixelas da “civilização do açúcar”, um tanto ou quanto ridículas. Eu quero, lá, o Sertão parecido com essas coisas invocadas! O sertão é bruto, despojado e pobre, mas para mim, é exatamente isso o que faz dele o Reino! [...]. Outros que escrevam sobre a Burguesia rural do açúcar, travestida em ‘nobreza’ pelos títulos comprados ao do Segundo Império ( SUASSUNA: 1977, p.65).


As variações conceituais detectadas no discurso regionalista dos dois intérpretes do Brasil, Ariano Suassuna e Gilberto Freyre, confluem, no entanto, no que diz respeito à hegemonia concedida à região nordestina, em contraposição ao Centro-Sul do país. Coincidem igualmente na noção de autenticidade articulada à tradição do Nordeste e às manifestações culturais populares da região. Nivelam-se na atribuição de um conceito unívoco de identidade nacional por meio do qual pensam a nação brasileira. E, finalmente, como já foi apontado antes, apresentam-se similares no critério de miscigenação mediado pelo discurso da cordialidade, sem questionar os contornos definidores desta noção fechada e fixa de nacionalidade, atrelada a um espaço geográfico, econômico e sociocultural recortado dicotomicamente por suas respectivas concepções de Brasil.
O Brasil miscigenado e castanho configurado no ideário armorial e na ficção de Suassuna é definido através das duas linhagens que identifica como raízes definidoras de nossa cultura - a linhagem barroca, de origem ibérica, recriada popularmente no Nordeste, e a linhagem propriamente popular, identificada, sobretudo, nas manifestações artísticas e literárias da região nordestina (cf. SUASSUNA:1969). A estas linhagens se juntam os conceitos de raça, cultura, região e nobilitação que permeiam suas concepções estético-ideológicas acerca da unidade nacional. Como afirma o narrador-protagonista no Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta (1971), explicitando no seu “estilo-régio” e na sua simbologia armorialista o projeto literário perseguido por ele dentro do romance, sintomaticamente análogo ao do próprio romancista: “Meu sonho é fundir os Fidalgos guerreiros e cangaceiros, como Sinhô Pereira e Jorge de Albuquerque Coelho, com os Fidalgos negros e vermelhos do Povo, fazendo uma Nação de guerreiros e Cavalheiros castanhos, e colocando esse povo da Onça-Castanha no poder! (SUASSUNA: 1976, p.214-215). Essa síntese integradora entre as manifestações culturais populares e os símbolos nobiliárquicos da heráldica, que reúne as concepções aparentemente díspares e contraditórias dos seus dois mentores intelectuais, Clemente e Samuel, defensores respectivamente da mitologia negro-tapuia e dos valores lusófilos da colonização ibérica, vem teoricamente explicitada no texto do Movimento Armorial:
A unidade nacional brasileira vem do Povo, e a Heráldica popular está presente, nele, desde os ferros de marcar bois e os autos dos Guerreiros do Sertão, até as bandeiras das Cavalhadas e as cores azuis e vermelhas dos Pastoris da Zona da Mata. Desde os estandartes de Maracatus e Caboclinhos, até as Escolas de Samba, as camisas e as bandeiras dos Clubes de futebol do Recife ou do Rio (SUASSUNA, 1974: 11).

Subentende-se na explicitação do conceito de unidade nacional de Ariano, formulado pela junção não problematizada do popular e do erudito, do “povo” transfigurado nobiliarquicamente pelos símbolos emblemáticos da heráldica, uma concepção, não só do conceito de povo e de cultura popular, mas também da noção de identidade, que se pode classificar - tomando de empréstimo os termos empregados por Silviano Santiago (2006, p.35) noutro contexto – como “indivisa, indecomponível e não fragmentária”. A idéia do popular e de suas manifestações culturais como expressão indivisa do todo nacional, ecoa em outro texto não ficcional de Suassuna, por meio de um discurso avaliatório que busca legitimar o popular, dimensionando o seu valor estético pela sua inserção na totalidade da nação brasileira: “A arte popular aqui e a arte do povo , do ‘quarto estado’. É de notar que às vezes essa arte alcança qualidade: isso ocorre principalmente quando o ‘quarto estado’ não se encontra dissociado do resto do povo, mas praticamente exprime uma unidade nacional” (SUASSUNA, 1963 – grifos nossos).
A representação romanesca dessa identidade nacional na Pedra do Reino é conduzida por um discurso especular, o do narrador-protagonista, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, que busca refletir mítica e mimeticamente a imagem desse Brasil cadinho e miscigenado, assumindo ele próprio a sua condição de mestiço. Para isso assinala sua dupla ascendência: a paterna, constituída pela linhagem dos “caboclos” e “cabras sertanejos” do reduto messiânico da Pedra do Reino, os Ferreira-Quaderna, e a materna, os Garcia-Barreto, família originária dos engenhos de açúcar de Pernambuco, radicada posteriormente na Paraíba. Ou seja, a linhagem dos “gentis-homens”, descendentes dos fidalgos ibéricos, cujo tronco remonta à figura legendária de Dom Sebastião. Surge dessa dupla linhagem, as quais o narrador se empenha em reconstituir para atestar seu direito ao “trono do Império do Brasil”, o sebastianismo castanho de Quaderna.
As configurações isomórficas entre os valores miscigenados da pátria e a genealogia castanha do narrador reatualizam uma das variações da máxima popular, tal pai, tal filho, asseguradora da consangüinidade e da transmissibilidade das características hereditárias da família patriarcal brasileira em determinadas vertentes da nossa produção literária naturalista/neonaturalista, segundo já mostrou Flora Sussekind (1984). A atualização dessa máxima no romance, asseguradora da correspondência entre essa representação do país mestiço e o texto que o representa, “tal Brasil, tal romance”, justifica a demanda literária do narrador Quaderna em busca de um gênero, a epopéia, que, configurando-se como a “Obra do Gênio da Raça”, “completa, modelar e de primeira classe” (SUASSUNA: 1976, p.147), seja a “cristalização da nacionalidade brasileira” (SUASSUNA:1976, p.274).
A tessitura narrativa d’A Pedra do Reino, que igualmente reduplica, noutro movimento especular do texto, a demanda literária perseguida pelo narrador, também se quer um romance-epopéico. Sua temática e técnica narrativa se constroem por analogia ao projeto traçado pelo postulante a romancista, Quaderna: “[...] eu ergueria meu Castelo, fazendo de ‘folheto em romance e de romance em folheto’ uma espécie de Sertaneida, Nordestíada ou Brasiléia, parecida com a do Senador Augusto Meira”( SUASSUNA: 1976, p.185 – grifos do autor). Caracterizando-se, ainda de forma análoga ao projeto de Quaderna, como “súmula da literatura brasileira”, o romance de Suassuna busca incorporar, no próprio processo de composição da literatura erudita, o imaginário popular do sertão, abrindo-se para a heterogeneidade de vozes que compõem o substrato estético e cultural do Nordeste: o cordel, as manifestações do folclore nordestino, a tradição do romanceiro medieval, juntamente com as formas épicas das novelas de cavalaria. Todas essas vozes e esse vasto material intertextual, no entanto, não eclodem autonomamente no processo narrativo. São filtrados pela centralidade da voz do sujeito da enunciação, que se encarrega de selecionar, pontuar, comentar e interpretar para os demais personagens e, sobretudo, para o leitor, através de constantes intervenções e digressões teóricas, as formas de expressão ligadas à elaboração artística do romance, acrescentando-lhes uma significação suplementar. O crivo do narrador, que revê e filtra a pasteriori os acontecimentos narrados e os encaixes narrativos, manipulando ao seu bel prazer e ao sabor de seus interesses os textos de que se apropria e a pluralidade do material disposto no livro, revela a presença de um sujeito solar uno e indivisível (LIMA: 2000, p. 84; 230-231 e LIMA: 2006)4, que se caracteriza pela centralidade da perspectiva narrativa, funcionando como guia do leitor e mestre da leitura. Na condição de condutor do relato, Quaderna neutraliza, via retórica da conciliação e substrato mítico, as concepções regionalistas/ nacionalistas divergentes dos outros dois intérpretes do Brasil com quem dialoga na cena textual, Clemente e Samuel, apaziguando as tensões e clivagens acerca dos complexos temas centrais articulados às diferentes noções de brasilidade e identidade nacional, de popular e erudito, que permeiam suas discussões acerca da “Obra do Gênio da Raça”. A univocidade solar desse sujeito enunciativo, alimentada mnemonicamente pelo lastro memorialista da voz autoral5, constrói-se por similaridade ao sol do sertão, imagem privilegiada na representação mitopoética, armorial e cavaleiresca do Nordeste pecuário –algodoeiro e da utopia do “Quinto Império do Sertão”, idealizada pelo narrador protagonista via travestimento feudal.
O rápido cotejo aqui empreendido entre o ideário regionalista de Gilberto Freyre e o ideário armorial de Ariano Suassuna, a partir do conceito de miscigenação que permeia suas respectivas representações de um Brasil cadinho luso-tropical busca, interdisciplinarmente, iluminar o diálogo entre duas vertentes discursivas distintas e situadas em etapas conjunturais diferentes no contexto histórico do país, entrecruzando as vozes da historiografia e da ficção. Oferecendo-se, pelo recorte diferenciado do espaço regional que privilegiam, como contrapartrida ideológica decorrente daquilo que Francisco de Oliveira (1981: p. 52) denomina “dialética de oposição” entre os dois Nordestes, ambas as vertentes convergem, no entanto, conforme procurou-se aqui demonstrar, no que diz respeito à representação unívoca e coesa de uma identidade nacional costurada pelo viés da cordialidade e pelo olhar da tradição.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_____.História. Ficção. Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


MENEZES, Djacir O outro Nordeste: ensaio sobre a evolução social e política do Nordeste da “civilização do couro” e suas implicações históricas nos problemas gerais. 2. ed. Rio de Janeiro: Artenova, 1970.

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SUASSUNA, Ariano Romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta; romance armorial-popular brasileiro. 4 ed. Rio de janeiro: José Olympio, 1976.

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SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.

1 Em Sílvio Romero a ambigüidade (tida por alguns críticos como contradição – Contradições é justamente o título atribuído na época por Laudelino Leite a um livro de sua autoria sobre o polêmico autor de História da Literatura Brasileira) se traduz na adaptação para o Brasil da teoria da civilização como mestiçagem, de Gobineau, compreendendo o mestiço simultaneamente como elemento diferenciador da cultura e etnia brasileiras, face ao colonizador português , portanto símbolo de uma identidade nacional, e como fator degenerativo da raça branca européia, conforme as concepções vigentes no séc. XIX, acerca da desigualdade racial. Ver a propósito a Introdução de Antônio Candido (In ROMERO, 1978 p.ix-xxx), que busca entender as oscilações conceituais de Silvio Romero à luz da “dialética peculiar da sua obra”.
2 Uma análise detalhada dessa semântica através do exame das metáforas culinárias utilizadas por Gilberto Freyre para caracterizar certa “intimidade fraternal” entre senhores e escravos, principalmente os dedicados ao serviço doméstico na casa grande, e para assinalar o “caráter híbrido” da sociedade brasileira, responsável, segundo o autor (FREYRE, 1978, p.5), pela “quase reciprocidade cultural” e pelo “máximo de contemporização” da cultura adventícia do colonizador com a nativa, encontra-se em FARIAS. In JOACHIM (org): 2003, p. 229-240.
3 Não deixa de ser sintomático o fato de que na literatura brasileira pós-independência ou pós-colonial, para usar um termo caro aos Estudos Culturais, mas às vezes utilizado anacronicmente em relação ao contexto brasileiro, o conflito racial é sempre tematizado pelo discurso amoroso, a exemplo de Iracema (1870). Como bem notou Silviano Santiago (2002, p.xxi,), relacionando à lenda de Alencar outras obras situadas em momentos distintos da produção literária brasileira, Ilha da maré (1705), de Botelho de Oliveira, O cortiço (1890), de Aluísio de Azevedo e Grabiela, cravo e canela (1958), de Jorge Amado, “essa tematização do possível conflito entre as duas etnias, através do erotismo dos personagens, visa a explicar a união cordial dos antagonismos pela cópula”.
4 Tanto em Mímesis desafio ao pensamento, como em História. Ficção. Literatura, Costa Lima vem perseguindo a configuração desse sujeito solar, atrelando-o a uma concepção clássica e cartesiana de mímesis, entendida como “subproduto reiterador do que já estava na cena do mundo”. Concepção esta que, segundo ele, seria responsável na modernidade pelas teorias desconstrutivistas pós-nietzschianas que, associando a mímesis a um dos modos de representação emanados deste sujeito solar decretam a morte do sujeito e vêem com desconfiança os conceitos de mímesis e representação. Problematizando tal entendimento de mímesis, o autor utiliza o conceito de “representação-efeito”: aquela que, embora se engendre ainda no sujeito, “a maneira de resposta afetiva ante fenômenos e acontecimenos”, desvincula-se da concepção de sujeito unitário e solar e articula-se à concepção de sujeito fraturado (cf.LIMA: 2000, p. 230-231).
5Tanto na ficção como na poesia do autor, a metáfora solar e seus correlatos apontam para a intersecção de três figuras de capital importância na imagética armorial do autor: as figuras da divindade, do pai e do rei, que alimentam o projeto literário d’A Pedra do Reino, como já foi demonstrado por mim e numa análise mais minuciosa do romance (cf. FARIAS: 2006).
Author: Sônia Ramalho de Farias
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Em 05 de outubro de 1897 termina definitivamente a Guerra de Canudos, designação através da qual entra para a história o conflito armado entre os adeptos messiânicos de Antônio Conselheiro, nos sertões da Bahia, e o Exército republicano nacional, após violento combate que durou quase um ano e levou quatro expedições ao interior do estado baiano para combater os conselheiristas.Na condição de correspondente do Jornal O Estado de São Paulo, Euclides da Cunha assiste aos últimos episódios desse acontecimento histórico como testemunha ocular dos fatos. Cinco anos depois, em 1902, publica Os sertões, obra que o iria consagrar como o maior intérprete dessa guerra e dessa “gente indomável”, expressão com que exprime – em carta de 26 de setembro de 1897, enviada ao jornal do qual é redator – sua admiração pela resistência dos sertanejos nos últimos dias do combate (Galvão, 1976, p. 62).Os sertões euclidianos: um paradigma na revisitação de CanudosLivro complexo e polêmico, Os sertões suscitou ao longo dos anos, por parte de comentaristas e críticos, reações radicalmente díspares, de recusa e louvor, de amor e ódio. Reações essas estendidas ao próprio autor, conforme acentua Walnice Nogueira Galvão (1981:62), em ensaio onde faz um balanço crítico dos oitenta anos de publicação da obra.Não obstante tais reações, a obra mestra de Euclides funciona indubitavelmente – não apenas no âmbito da ficção, mas na de outros gêneros e diversificadas modalidades discursivas – como paradigma para a revisitação do tema. É a partir desse texto matriz, considerado por um escritor brasileiro como O “gibão de couro de nossa nacionalidade” (Dantas, 1982, p. 160) que ficcionistas, dramaturgos, poetas, historiadores, sociólogos, entre outros intelectuais, têm retomado o episódio de Canudos sob os mais variados ângulos, recortes e perspectivas. A própria literatura de cordel não se mantém imune às suas marcas. Ao contrário, mediada pelo imaginário popular do sertão, a retórica euclidiana chega até aos folhetos de feira e à voz do poeta popular, configurando, de forma unívoca ou ambígua, a imagética do messias de Canudos e sua “Tróia de taipa”, imagem através da qual Euclides designa n’Os sertões, entre outras que remontam à Antiguidade Clássica e à Idade Média, o arraial de Antônio Conselheiro.No contexto da literatura brasileira erudita, os anos 50 marcam o surgimento de dois romances: João Abade (1958), de João Felício dos Santos, e Capitão Jagunço (1959), de Paulo Dantas, que buscam revisitar a luta travada entre os beatos do Belo Monte de Canudos e as forças armadas brasileiras, deslocando o ângulo de abordagem da perspectiva culta e erudita, característica do narrador d’Os sertões, para uma perspectiva que incide sobre um ângulo interno e popular: o da gente de Canudos, no caso de João Abade; e o de um jagunço morador nos arredores do arraial do Conselheiro, e ex-guia das tropas republicanas, no caso do romance de Paulo Dantas, o Capitão Jagunço do título, cujo relato cindido e ambíguo dá-se a partir deste duplo lugar de onde narra, o lugar dos valores republicanos e o lugar dos valores sertanejos, o do homem litorâneo e do homem do sertão, o do exército e da gente do Conselheiro, conforme já apontou um ensaísta da obra (Fonseca, 1990, p. 68-69). Mesmo considerando-se a clivagem do narrador de Paulo Dantas, em ambos os romances os acontecimentos deixam de ser vistos de um foco urbano e letrado, para ser filtrados pelo prisma do sertanejo e pelo imaginário rural. Tal mudança de ponto de vista não descarta, no entanto, a recorrência ao livro de Euclides como um dos subsídios mais importantes para a reconstrução da matéria romanesca e como um dos interlocutores privilegiados para os eventos narrados.Posteriormente a João Abade e Capitão Jagunço, dois outros romances da nossa literatura revisitam o tema de Canudos, estabelecendo um diálogo com a obra euclidiana, de forma e ângulos diferentes e contrastivos entre si. São eles: O romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971), de Ariano Suassuna e a Casca da Serpente (1989), de J.J. Veiga. O primeiro recria os fatos ligados ao arraial de Belo Monte não como tema central, mas como episódio importante articulado à temática principal do livro. A saber, o projeto messiânico do narrador Dom Pedro Diniz Ferreira-Quaderna, cuja voz em primeira pessoa apresenta-se comprometida com os fatos narrados. O segundo empreende uma “reedição crítica” de Canudos sob uma perspectiva revisionista, filtrada pela ótica de um narrador anônimo em terceira pessoa, distanciado dos eventos romanescos. Trata-se, na verdade, da construção de dois projetos utópicos: a restauração da utopia sebastianista do V Império, no livro de Ariano, e a utopia anarquista de uma sociedade sem governo, em nome da qual se dá, no romance de J. Veiga, a gradual transformação do personagem central: de Antônio Conselheiro a tio Antônio. Ou seja, de messias e líder teocrata conservador, voltado para o mundo endógeno do sertão, a liberal democrata, aberto às inovações da ciência e ao progresso da realidade exógena. É ainda em nome dessa utopia que se torna possível a construção de uma Nova Canudos, a Concorrência de Itatimundé (orientada pelo teórico do anarquismo, o russo Piotr Alekseivitch Kropotkin, 1842-1921), após a derrocada do velho arraial pela quarta expedição do exército. Desfecho ao qual, ao contrário do que diz a história e o livro de Euclides, sobreviveram o Conselheiro e vários dos seus mais importantes seguidores, mediante um ardil engendrado pelos jagunços para ludibriar as tropas do exército e garantir a fuga e sobrevivência do líder messiânico.Tem-se, pois, em se tratando d’A Pedra do Reino, uma utopia voltada para o passado e para a tradição: a busca das raízes nordestinas e de uma identidade nacional, via resgate mítico dos valores regionais e tradicionais do Nordeste, e outra, no caso da Casca da Serpente, projetada para um futuro que se concretiza no presente textual: a criação de uma sociedade penetrada pela modernização e pelo progresso, mediante a tradução[1] crítica daqueles valores identitários arcaicos representados pelo antigo reduto messiânico o seu líder espiritual, o Conselheiro.Embora n’A casca da serpente, a utopia da Nova Canudos em moldes modernos seja posta para ser negada no final do romance, com a significativa destruição da Concorrência de Itatimundé, em 1969, isto é, em pleno contexto do regime militar iniciado em 1964, reduplicando-se, assim, em um novo texto/contexto o destino trágico do Belo Monte, o contraste entre o projeto utópico de Ariano e J.J. Veiga não deixa de ser fascinante. A configuração das duas utopias distintas pede uma leitura conjunta de ambas as narrativas em busca de suas possíveis articulações intertextuais e do diálogo que entretêm com a matriz euclidiana. O próprio e inusitado desfecho incentiva ainda mais esta leitura.A complexidade da empresa extrapola, no entanto, os limites deste ensaio. Proponho-me, assim, deter-me, por enquanto, apenas no exame do projeto sebástico d’A Pedra do Reino, adiando o cotejo com o texto de J.J. Veiga para um posterior desdobramento destas reflexões.A utopia sebastianista d’A Pedra do ReinoNo romance de Ariano Suassuna, o sertão do Nordeste está predestinado a realizar o sonho do Quinto Império profetizado no século XVII pelo jesuíta Antônio Vieira. A referência explícita à utopia sebástica de Vieira é feita por um dos personagens do romance, um dos mestres e mentores intelectuais do narrador, o monarquista Samuel Wandernes, no “folheto” XXXIV. Narrado os sucessos da batalha de Alcácer-Quibir, “o fidalgo dos engenhos”, conforme é denominado por Quaderna, destaca o episódio em que Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, empresta a Dom Sebastião o cavalo branco no qual o rei se encanta, “‘encobrindo-se’ para voltar um dia com seu nome verdadeiro ou outro qualquer, a fim de instaurar o Quinto Império do Brasil, sonho messiânico e profético de Antônio Vieira e de outros visionários da nossa Raça!” (Suassuna,1976, p.169). Em outra passagem do romance – “folheto” LXXX – Samuel volta a estabelecer a mesma analogia entre o projeto messiânico desejado para o Brasil e as profecias do jesuíta lusitano: “O Brasil poderia ficar mais importante do que o Império de Filipe II, realizando nós, aqui, o Quinto Império profetizado por Antônio Vieira!” (Suassuna,1976, p. 577).Quaderna procura fundir a tradição do sebastianismo lusitano defendido por Samuel com os movimentos messiânicos ocorridos no Nordeste, conciliando, deste modo, as duas vertentes do mito sebastianista: a vertente aristocrática ibérica e a vertente popular nordestina. Compõem a imagética religiosa do V Império os seguintes movimentos messiânicos ocorridos no Sertão do Nordeste nos séculos XIX e XX: o movimento da Serra do Rodeador ou Santa da Pedra, também conhecido como Cidade do Paraíso Terrestre, eclodido em Bonito, interior de Pernambuco, em 1819; o movimento da Pedra Bonita, Reino Encantado ou Pedra do Reino, surgido em Flores também em Pernambuco (1835-1838); o Movimento de Canudos ou Belo Monte (1896-1897), denominado no romance de Suassuna de Império do Belo Monte de Canudos, e o movimento de Padre Cícero de Juazeiro (1872-1934).[2]Mediados pela leitura das novelas de cavalaria que informam o imaginário popular do sertão, sobretudo pela História de Carlos Magno e os doze pares de França, (cujo personagem central vem reproduzido numa das gravuras que ilustra o romance) esses movimentos messiânicos se revestem no texto de Ariano de um aspecto nobiliárquico, místico-cavalheiresco. Como tais, integram, na condição de “reinos tributários”, a vertente religiosa daquilo que Quaderna denomina “A Guerra do Século do Reino”[3] ou “A Grande Revolução Sertaneja do Povo Fidalgo-Castanho do Brasil”. O movimento do Contestado, também conhecido por Guerra Santa, único não ocorrido no Nordeste, mas no interior de Santa Catarina entre 1910 e 1914, embora não seja mencionado nenhuma vez no discurso do narrador ou no dos demais personagens, comparece implicitamente, através de sua aparelhagem cavalheiresca (Queiroz, 1971) como um dos parâmetros para a recriação simbólica da monarquia messiânica do fenômeno da Pedra do Reino.Afora as seitas referentes à “dinastia” do “reino” do Pajeú, (ou seja, a do Rodeador e da Pedra do Reino, que constituem os pilares centrais do projeto sebástico do romance), o movimento de Canudos é o que merece maior destaque na obra de Ariano. O arraial de Antônio Conselheiro aparece como ponto de referência constante para a representação da utopia messiânico-cavalheiresca do narrador, tornando-se o símbolo paradigmático da “Monarquia Sertaneja” por ele sonhada: aquela que concilia de forma “harmônica” as reivindicações da classe oprimida (a “Esquerda”, como a nomeia miticamente Quaderna, influenciado por seu outro mestre e mentor intelectual, o “comunista” Clemente Hará de Ravasco Anvérsio) com as imagens emblemáticas da heráldica, readaptadas ao contexto cultural do sertão:“Meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, os desfiles, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!” (Suassuna, 1976, p. 285).A exemplo da interpretação que confere aos fenômenos da Serra do Rodeador e da Pedra Bonita, Quaderna reveste o arraial do Belo Monte de uma configuração épica, procurando ajustá-lo às suas idéias de epopeieta.[4] Deste modo, o combate travado entre os jagunços de Canudos e as expedições militares ganha aqui os mesmos contornos das batalhas das novelas de cavalaria. Num excerto do romance, onde situa o movimento como um dos episódios da “Guerra do Reino”, o narrador assim o especifica: “aquele cerco ilustre, povoado de combates sanguinolentos e retiradas heróicas, que foi a ‘Guerra do Império do Belo Monte de Canudos’ [...]”(Suassuna, 1976, p. 284). O Conselheiro, por sua vez, recebe um título nobiliárquico equivalente aos que Quaderna confere aos beatos sebastianistas da Pedra, sendo designado como o “Regente Dom Antônio Conselheiro” (Suassuna, 1976, p. 42).Além das novelas de cavalaria, as imagens utilizadas para representar o movimento de Canudos e a figura do seu messias derivam de três suportes textuais diferentes: Os sertões, de Euclides da Cunha, a literatura de cordel e os manuscritos atribuídos a Antônio Conselheiro.Da obra de Euclides, a quem considera seu precursor e com o qual “compete” em termos de talento, temática e estilo literário, o narrador assimila as metáforas e os símiles de que lança mão para instaurar uma semelhança nobilitadora ente os aspectos e os feitos do arraial e o universo cavaleiresco da Idade Média ou a realidade histórica e literária da Antigüidade grega. Ao assinalar a “coincidência” entre a data de seu nascimento e os episódios da guerra de Canudos, afirma: “Eu nasci a 16 de junho, de 1897, no auge do ‘Cerco de Canudos’, que é a nossa ‘Guerra de Tróia’”. (Suassuna, 1976, p. 271 – grifos nossos). Imita, assim, Euclides que se refere n’Os Sertões ao arraial do Conselheiro como a nossa “Tróia de Taipa”. A própria expressão “Império do Belo Monte”, com que designa o movimento, encontra-se, segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976, p. 234), no diário do autor d’Os Sertões, embora, de acordo com o que constata a socióloga, não pareça provável haver em Canudos um arremedo de monarquia com títulos nobiliárquicos, nem tampouco conste que o Conselheiro tivesse realmente criado “instituições imperiais”. Ainda do escritor de Contrastes e confrontos, Quaderna imita o vezo de mostrar erudição e o estilo hiperbólico É o que ele mesmo confessa ao corregedor, personagem a quem presta depoimento, quando encontra-se preso na cadeia de Taperoá, suspeito de envolvimento na morte de seu tio-padrinho, Dom Sebastião Garcia Barretto, e do desaparecimento misterioso do filho deste, Sinésio, o Alumioso, o rapaz do cavalo branco, representante simbólico no presente textual da figura de São Sebastião. Assim, quando o corregedor lhe chama a atenção para sua tendência à hipérbole, o narrador, cita Homero e Euclides da Cunha como modelos para justificar o uso freqüente dessa figura retórica no seu romance: “Esses aumentos fazem parte do próprio estilo epopéico! Homero, mesmo, aumenta extraordinariamente o número de Cangaceiros gregos comandados pelos Reis lá dele, e, em Canudos, Euclydes da Cunha faz o mesmo, tanto para o lado do Exército quanto para o lado dos Sertanejos!” (Suassuna, 1976, p. 364).É recorrendo também ao livro de Euclides da Cunha que o narrador ressalta o aspecto místico de Antônio Conselheiro, estendendo-o, por contigüidade, ao próprio autor d’Os Sertões. Numa passagem da obra clássica sobre Canudos, o escritor fluminense descreve a morte do líder messiânico dentro do templo em ruínas e relata, logo a seguir, a propagação da crença dos fiéis na imortalidade do Conselheiro. Na opinião dos adeptos, o profeta não morrera. Seguira em viagem ao céu e voltaria em breve, revestido de poderes sobrenaturais, a fim de destruir as tropas do Exército que sitiavam o arraial nos seus estertores. Na descrição da cena, Euclides utiliza uma imagética bíblica para mostrar a forma como os sectários da seita imaginam o retorno miraculoso do messias: “[...] o profeta volveria em breve, entre milhões de arcanjos, descendo – gládios flamívomos corruscando na altura – numa revoada olímpica, caindo sobre os sitiantes, fulminando-os e começando o Dia do Juízo...” (Cunha, 1957, p. 490).Os dois acontecimentos descritos no trecho d’Os sertões, o falecimento do Conselheiro e o regresso extraordinário esperado pelos fiéis, são apresentados por Quaderna como se fossem assistidos pessoalmente pelo próprio autor do relato. Transpondo para Euclides os dons visionários e proféticos que costuma atribuir a si mesmo, ele associa a cena da morte do Conselheiro e a imagética bíblica por meio da qual Euclides configura a espera messiânica dos adeptos na volta do messias à transfiguração de Cristo no deserto. Através desta associação, engendra várias equivalências semânticas. Primeiro, estabelece uma analogia entre a “visagem” de Euclides e a dos profetas que assistiram a transfiguração do Filho de Deus. A seguir, cria uma correspondência entre a “transfiguração” do Conselheiro e a de Jesus. Depois, correlaciona a figura do beato do Belo Monte às de Ezequiel e João de Patmos. Por último, compara a “ressurreição” de Antônio Conselheiro ao reaparecimento calamitoso de Sinésio na Vila de Taperoá em 1935:Sabe quem teve, aqui no Brasil, uma ‘viração’ parecida com aquela Transfiguração do Cristo, Sr. Corregedor? (...)– Euclydes da Cunha! Este, como um dos Profetas das terras desérticas de Canudos, viu Santo Antônio Conselheiro morrer do jejum de protesto e dos efeitos de um ferimento de bala. Como visionário e Profeta que era, viu, esticado no chão, o Santo e Profeta de todos nós, Sertanejos. Teve, aí, uma viração e viu o Conselheiro transfigurado e exaltado, ressurreto ‘entre milhões de Arcanjos descendo – gládios flamívomos, coruscando na altura – numa revoada’. É por tudo isso, (...) que eu digo que Ezequiel e João eram os Conselheiros judaicos! É por isso que eu disse que, no dia em que chegou aqui o nosso Príncipe do Cavalo Branco, estreando sua grande Marcha desaventurosa de calamidades, vinha cercado por legiões de Arcanjos e Demônios perigosos! (Suassuna, 1976, p. 468 – grifo do autor).A representação mística de Antônio Conselheiro ocorre ainda pela mediação do cordel, especificamente através dos versos imputados ao poeta popular Jota Sara. O poema, recitado pelo personagem Lino Pedra-Verde, o vate sertanejo, celebra os atributos pessoais do Conselheiro conforme são concebidos pelo imaginário do sertão. Condensam-se aí a figura do “simples penitente” portador dos predicados mais caros ao sertanejo – modéstia, honestidade e valentia – com a figura carismática do profeta, identificado a Moisés e tido como “Pai do Povo” e “autor da Redenção”, em torno de quem se cirstalizam as esperanças milenaristas acerca do regresso miraculoso de Dom Sebastião. Vejam-se, a propósito, as estrofes do referido folheto, cujo desfecho volta a aludir à analogia entre Canudos e a Guerra de Tróia imagética, como se viu, tomada de empréstimo a’Os sertões:“O Leitor já viu contara história do Conselheiro?Foi um simples Penitenteque assombrou o mundo inteiro:modesto, honesto e valente,que fascinou muita genteneste Sertão brasileiro!Sua Arma era uma vergana espécie de bastão.Era o tipo de Moiséspregando pelo Sertão:imitava-o no Sinaie o Povo o tinha por Paie autor da Redenção!A Nação gastou dinheiroe cinco mil Oficiais!Nos pelados de Canudosestão seus restos mortais!Os ossos, petrificados:veio gente dos Estadosque não voltou nunca mais!Reuniu-se aquela gentepr’o dia da Redenção,esperando o Salvadore o Rei Dom Sebastião!Gente fazia fileira:foi a Tróia Brasileiranos carrascais do Sertão!”(Suassuna, 1976, p. 593).As prédicas de Antonio Conselheiro e a versão de QuadernaNo reaproveitamento dos manuscritos atribuídos a Antônio Conselheiro, Quaderna engendra uma contraposição entre a monarquia sebastianista que visa restaurar no sertão do Nordeste e a monarquia dos braganças. Ao mesmo tempo, reelabora, com base nesses textos, a oposição encetada pelo líder messiânico de Canudos entre Monarquia e República.Embora recorra constantemente aos manuscritos do messias de Canudos, Quaderna não explicita, no corpus do romance, as fontes de onde colhe as palavras do Conselheiro. A esse respeito, afirma apenas vagamente: “[...] eu tomava, por caminhos do acaso, conhecimento dos ‘escritos’ deixados pelo Profeta e santo Peregrino do Sertão, o Regente do Império do Belo Monte de Canudos, Santo Antônio Conselheiro,” (Suassuna, 1976, p. 448). Sabemos, contudo, através das pesquisas por nós realizadas, que os “escritos” do “Peregrino do Sertão”, citados por Quaderna, não provêm de uma única matriz textual. Constituem uma miscelânea de prédicas colhidas em fontes diferentes e recriadas sob uma nova roupagem pelo narrador. Algumas dessas prédicas, às relativas ao iminente regresso de Dom Sebastião para pôr fim à República, são extraídas do trecho de um sermão recolhido por Euclides da Cunha, n’Os sertões. Outras, que pregam também a condenação do regime republicano, constam de uma carta encontrada pelo tenente coronel Dantas Barreto, em Belo Monte (Queiroz, 1976, p. 238). A maioria, porém, constitui versão readaptada de um discurso sobre a República inserido num manuscrito descoberto pelo médico João Pondé, no dia 5 de outubro de 1897, quando as tropas do General Artur Oscar de Andrade assenhoaram-se vitoriosas do arraial de Canudos. Este discurso vem integralmente transcrito por Ataliba Nogueira (1978, p. 175-184), em Antônio Conselheiro e Canudos, os manuscritos de Antônio Conselheiro e que pertenciam a Euclides da Cunha.Excertos dessas várias prédicas comparecem como epígrafes do romance, juntamente com outros enunciados atribuídos a Dom Sebastião (prenunciando a luta contra os mouros em Alcácer-Quibir) e a Dom Pedro I (por ocasião da proclamação da independência do Brasil).Na utilização dos “escritos” de Antônio Conselheiro, que reúne sob o título de Caminho Místico do Peregrino do Sertão, o narrador manipula a seu bel-prazer as profecias do líder do Belo Monte. Empregando um processo de colagem de textos, característico da técnica de composição do romance, ele mescla parte do sermão colhido por Euclides a trechos do discurso sobre a República inserido no manuscrito achado por João Pondé. Ajunta ainda a estes fragmentos algumas expressões da carta encontrada por Dantas Barreto, que figuram numa das epígrafes da narrativa. Por meio desse processo de colagem, compõe um novo texto, onde as palavras do Conselheiro são correlacionadas ao fenômeno da Pedra do Reino e ao projeto messiânico do Quinto Império e servem para reafirmar tanto o aspecto religioso quanto o aspecto nobiliárquico da “Monarquia” e do “Catolicismo” sertanejos.[5]A inserção das profecias do messias de Canudos nos rituais da religião adotada por Quaderna evidencia-se nas práticas ritualísticas explicitadas numa das passagens da narrativa. Quando vai ao Lajedo “sagrado”, na véspera de Pentecostes, para cumprir as “obrigações litúrgicas” do “Catolicismo Sertanejo”, o narrador leva consigo duas obras que considera básicas: o Caderno de anotações astrológicas, herdado de seu pai, e o Caminho Místico do “santo” de sua devoção, Antônio Conselheiro. Uma das práticas da liturgia consiste justamente na leitura deste último livro, que passa a recitar, invocando Adonai.“[...] eu me voltei, primeiro, para a direção do Pajeú, onde estão as duas Torres de pedra do nosso Reino. E, abrindo o Livro escrito pelo Peregrino do Sertão, comecei a recitar, em tom de Salmodia, minha primeira invocação a Adonai [...]” (Suassuna, 1976, p. 454).Para que se verifique como se dá o processo de colagem acima referido e as readaptações introduzidas pelo narrador às palavras do Conselheiro, vale registrar os textos mencionados, cotejando-os depois com o texto de Quaderna. O discurso sobre a República será transcrito apenas parcialmente, dando-se destaque, sobretudo, aos aspectos retomados e reelaborados pelo narrador:Prédica do Conselheiro apresentada por Euclides da Cunha n’Os sertões:“Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brazil com o Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo seu exército.Desde o princípio do mundo que encantou com todo seu exército e o restituiu em guerra.E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ella foi até os copos e elle disse: Adeus mundo!Até mil e tantos a dois mil não chegarás!Neste dia quando sahir com o seu exército tira a todos no fio da espada deste papel da República. O fim da guerra se acabará na Santa Casa de Roma e o sangue hade ir até a junta grossa...” (Cunha, 1957, p. 151).Trecho do discurso sobre a República constante do manuscrito encontrado por João Pondé:“[...] a república [...] é incontestavelmente um grande mal para o Brasil que era outrora tão bela a sua estrela. Hoje porém foge toda a segurança, porque um novo governo acaba de ter o seu invento e do seu emprego se lança mão como meio mais eficaz e pronto para o extermínio da religião [...] a república quer acabar com a religião, esta obra-prima de Deus que há dezenove séculos existe e há de permanecer até o fim do mundo [...]. O presidente da república, porém, movido pela incredulidade que tem atraído sobre ele toda sorte de ilusões, entende que pode governar o Brasil como se fora um monarca legitimamente constituído por Deus; tanta injustiça os católicos contemplam amargurados. [...] Todo poder legítimo é emanação da Onipotência eterna de Deus e está sujeito a uma regra divina, tanto na ordem temporal como na espiritual, de sorte que, obedecendo ao pontífice, ao príncipe, ao pai, a quem é realmente ministro de Deus para o bem, a Deus só obedecemos. [...] É evidente que a república permanece sobre um princípio falso e dele não se pode tirar conseqüência legítima: sustentar o contrário seria absurdo, espantoso e singularíssimo; porque, ainda que ela trouxesse o bem para o país, por si é má, porque vai de encontro à vontade de Deus, com manifesta ofensa de sua divina lei. [...] Quem não sabe que o digno príncipe o senhor Dom Pedro 3º tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil? Quem não sabe que o seu digno avô o senhor Dom Pedro 2º, de saudosa memória, não obstante ter sito vítima de uma traição a ponto de ser lançado fora de seu governo, recebendo tão pesado golpe, que prevalece o seu direito e, conseqüentemente, só sua real família tem poder para governar o Brasil? Negar estas verdades seria o mesmo que dizer que a aurora não veio descobrir um novo dia. O sossego de um povo consiste em fazer a vontade de Deus [...] É necessário enfim que se faça a sua divina vontade, combatendo o demônio que quer acabar com a fé da Igreja. [...] É erro de aquele que diz que a família real não há de governar mais o Brasil: se este mundo fosse absoluto, devia-se crer na vossa opinião; mas não há nada de absoluto neste mundo, porque tudo está sujeito à santíssima providência de Deus [...]. A república há de cair por terra para confusão daquele que concebeu tão horrorosa idéia. [...] Dá a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Mas este sublime sentimento não domina no coração do presidente da república, que a seu talante quer governar o Brasil, praticando tão clamorosa injustiça, ferindo assim o direito mais claro, mais palpável da família real, legitimamente constituída para governar o Brasil. Creio, nutro a esperança que mais cedo ou mais tarde há de triunfar o seu direito, porque Deus fará devida Justiça, e nessa ocasião virá a paz para aqueles que generosamente têm impugnado a república. É preciso, porém, que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família real, porque sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão [...] porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo [...]” (Nogueira, 1978, p. 175-182).Excerto da carta encontrada por Dantas Barreto e utilizado como epígrafe n’ A Pedra do Reino:“Estejão certos que a República se acaba breve. É princípio de espinhos. Entrando a Monarquia, serão formados novos Batalhões, pois por serem os Batalhões feitos de canalhas é que tem chegado a tal ponto. O Prinspo é o verdadeiro dono do Brasil. Quem for republicano mude-se para os Estados-Unidos!” (Suassuna, 1976)Versão de Quaderna a partir dos três textos transcritos:“Ó Adonai! Ó Onça Tapuia, Negra e Malhada do Divino do Sertão! Esta República dominada por Burgueses gordos é, sem dúvida, um grande mal para o Império do Sertão do Brasil! Ela pretende minar e desmoralizar o Povo da Onça Castanha e nosso Catolicismo Sertanejo, esta obra-prima de Deus, religião mais perfeita e mais antiga do que o Catolicismo Romano! Este, tem somente vinte séculos, enquanto a nossa sagrada Religião da Pedra do Reino foi fundada no Deserto sertanejo da Judéia, junto às Pedras do Reino do Sinai e do Tabor! O Presidente da República, seus cupinchas e os gordos ricos, entendem que podem governar, trair e vender o Império do Brasil a seu bel-prazer! No entanto, o Brasil está predestinado para o Monarca Castanho do Povo, aquele que foi legitimamente constituído por Deus para fazer o bem e a grandeza do Povo Brasileiro! Quanta injustiça nós, Católicos Sertanejos, contemplamos amargurados! O poder do Presidente não é legítimo, a República não é legítima! Todo poder legítimo é uma emanação da Onipotência eterna do Deus Sertanejo através do Povo, e portanto está sujeito à regra divina da nossa Santa Igreja da Pedra do Reino, tanto na ordem temporal como espiritual! Todos os Brasileiros deveriam estar obedecendo a Quaderna, Príncipe, Pai e Profeta, porque obedecendo a ele, é a Deus que todos obedecem. É evidente, para todas as pessoas de bem, que esta República permanece sob um princípio falso e só traz o mal para o Povo Brasileiro! Ainda, porém, que ela trouxesse algum bem, ainda assim é má por si mesma, porque contraria a Lei sagrada do Povo e do Sertão! Quem não sabe que o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro Dinis Quaderna, deveria, logo, ser coroado como Dom Pedro IV, O Decifrador, Rei do Sertão, Imperador do Brasil e Sumo Pontífice da Igreja Católico-Sertaneja, sendo, como tal, reconhecido pelas Nações? Negar estas verdades, seria o mesmo que dizer que o Sol não é divino e não descobre sempre um novo dia, aos raios de seu fogo de Ouro! É erro, e erro grave, dizer que a família real dos Quadernas não deve mais governar o Brasil, como fez há um século na Pedra do Reino do Sertão do Brasil! Uma coisa é o Sertão, outra é o Mundo! Se o Mundo fosse divino e absoluto, ainda se poderia duvidar. Mas o Sertão é que é divino, e o Sertão só jura e pune pelo sangue real dos Quadernas! Por isso, esta República da iniqüidade cairá por terra e, mais cedo ou mais tarde, Deus fará a devida justiça! A República se acaba breve: é princípio de Espinhos! O Príncipe é o verdadeiro dono do Brasil! Das ondas do Mar, Dom Sinésio Sebastião sairá com todo o seu Exército. Tira a todos, no fio da Espada, desse papel da República, e o sangue há de ir até a junta grossa. Quem for republicano, mude-se para os Estados Unidos! O Tempo está chegando, o Século vem vindo! É preciso que Deus e o Povo não deixem em silêncio a causa verdadeira e a origem de todos os obstáculos que o Presidente da República e seus cupinchas levantam, para impedir que a família imperial dos Quadernas chegue de novo ao Trono do Brasil: é o medo, é o horror de que todos ficaram possuídos, ao saber que, na Pedra do Reino, há um século, Dom João II, o Execrável, mandou sacrificar sete mil Cachorros que, se o Reino tivesse continuado, teriam ressuscitado como indômitos Dragões, para devorar os poderosos e confirmar o Império, acabando a escravidão do Povo, a traição ao Brasil, e instaurando, de uma vez para sempre, a justiça e a monarquia do Povo, através da Coroa de couro e prata da Onça Malhada do Sertão!” (Suassuna, 1976, p. 456-457).Os textos de Antônio Conselheiro apresentam todos eles uma oposição dicotômica entre Monarquia e República. A bipolarização entre esses dois regimes não assume, pelo menos nos exemplos em destaque, uma coloração política nitidamente delineada. Fundamenta-se, ao invés, em um critério eminentemente teológico,[6] que se explicita, de forma mais contundente, ao longo de todo o segundo texto transcrito. Com base nesse critério, a República adquire uma conotação negativa. Consubstancia-se como uma instituição contrária aos princípios básicos da religião católica, aos dogmas ortodoxos da Igreja Romana, tais como os entendia o Conselheiro.7 Introduzindo a separação entre Igreja e Estado, entre poder espiritual e poder secular, a instituição republicana é vista como uma ordem ilegítima, identificada ao mal e às forças demoníacas. Em sentido contrário, justificam-se os louvores à Monarquia. Partidário do direito divino do rei, a quem vê como autêntico representante de Deus na terra, o beato concebe o regime monárquico como uma ordem ideal, cujo poder é legitimado pela onipotência divina. Explica-se, assim, a nostalgia ao regime nobiliárquico e a referência aos membros da Casa de Bragança como os genuínos detentores do poder constituído, em contraposição ao presidente da República, em cujo governo enxerga uma usurpação desse poder que, por direito natural e decreto divino, pertence à família imperial.O tema da restauração da Monarquia não adquire, todavia, nas palavras do profeta do Belo Monte, a feição que lhe deram os republicanos históricos. Entre esses, o próprio Euclides da Cunha que, antes de assistir in loco ao combate, denomina o movimento de Canudos de “a nossa Vendéia”, numa associação entre o arraial do Conselheiro e o levante monarquista camponês da Vendéia contra a Revolução Francesa de 1789 (Galvão, 1976, p. 55; 68). Ao contrário do que pensavam, portanto, o Governo da República e inicialmente também Euclides, o Conselheiro não apregoa nenhuma ação concreta, visando a derrocar a nova ordem em vigor. Os textos em exame não indicam nenhuma atitude neste sentido. Neles, a volta ao antigo regime é concebida num plano mítico. Seria através do regresso miraculoso de Dom Sebastião que se poria fim ao reinado do “Anti-Cristo”. Nos sermões colhidos por Euclides fica patente a saída proposta para acabar com a “iniqüidade” da República: “[...] das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo seu exército [...] Neste dia [...] tira a todos no fio da espada desse papel da República”. A solução proposta é, portanto, uma solução messiânica, não havendo nenhuma alusão à possibilidade de restaurar-se a ordem monárquica por meio de uma insurreição armada que se destinasse a este fim. O próprio Euclides, nas páginas d’Os sertões, corrigindo sua percepção inicial de republicano, desmente “a propalada conspiração monarquista de que Canudos seria um foco” (Galvão, 1976, p. 56).N’A Pedra do Reino ao acoplar, via invocação a Adonai, as várias profecias e prédicas do Conselheiro, Quaderna encampa também a mesma oposição entre Monarquia e República. Sem romper com o teor mítico e místico dos textos em que se apóia, ele utiliza as mesmas imagens lingüísticas empregadas pelo profeta de Canudos. Introduz, porém, no seu discurso, uma série de encaixes e de substituições semânticas, a fim de readaptar as palavras do “peregrino” às suas próprias concepções monárquico-religiosas. Assim, se, por um lado, conserva o mesmo princípio teológico como argumento justificador da bipolarização entre ambos os regimes políticos, por outro lado, acresce a esse princípio os critérios de classe social e de região, de modo a ajustar o pensamento do Conselheiro às características do “Império” do sertão. Ancorada em tais critérios, a deslegitimação do regime republicano se dá não em nome dos dogmas da religião católica, como no caso do líder de Canudos8, mas em nome dos preceitos do “Catolicismo Sertanejo” da Pedra do Reino. Como esses preceitos se calcam na fusão cordial dos valores sócio-culturais dos dois segmentos da sociedade brasileira privilegiados pelo narrador, o povo e a aristocracia rural, a crítica à República identifica-se com a crítica a uma determinada classe social que não representa esses valores: a burguesia urbana. Por outro lado, a Monarquia de que fala Quaderna e cujo poder concebe como emanação legítima da ordem divina não é, como postula Antônio Conselheiro, a Monarquia dos Bragança, mas a “Monarquia” da Pedra do Reino, a qual pretende restaurar através do Quinto Império sebastianista. Em conseqüência, o monarca a quem está predestinado o trono do Brasil não pode ser nenhum descendente da dinastia bragantina, e sim Dom Pedro IV. Quer dizer, o próprio narrador que se considera herdeiro de uma dupla linhagem real, a dos Ferreira-Quaderna, do reduto messiânico da Pedra, e a dos Garcia-Barretto, cuja origem remonta a Dom Sebastião. A exemplo dos sermões do Conselheiro, a restauração desse “regime monárquico” também se consubstancia, no discurso de Quaderna, via solução messiânica. Corporificada agora na figura de Dom Sinésio, essa solução reatualiza a mesma imagética empregada nas prédicas que vaticinam o regresso do messias lusitano.As alterações empreendidas pelo narrador nos manuscritos do profeta de Canudos não constituem um mero jogo retórico desprovido de significação. Ao invés, elas possibilitam explicitar, a partir do par antitético Monarquia/República, um dos fundamentos ideológicos básicos que norteia a perspectiva do romance. A saber, a bipolarização entre o mundo rural do sertão e a civilização urbana e burguesa. Poder-se-ia dizer, portanto, que a dicotomia que alicerça o discurso de Quaderna não é propriamente entre regime monárquico e regime republicano, no sentido em que se costumam conceber politicamente estes dois termos. É, sobretudo, entre Nordeste pecuário-algodoeiro e Centro-Sul do país, entre sertão e litoral, identificados respectivamente com os valores “nobiliárquicos” da “fidalguia” sertaneja e com os valores republicanos da burguesia citadina.É em contraposição, portanto, ao processo de urbanização e industrialização do país, cujo marco histórico é a Revolução de 1930, que se insurge O romance d’A Pedra do Reino. A esse contexto de 30 junta-se ainda a fase de “arranque” desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitschek, nos anos 50, onde se dá o incremento da industrialização, e o contexto do movimento militar de 1964, durante o qual ocorrem as condições políticas e ideológicas para a implantação definitiva do capitalismo no Brasil, com afluência de grande massa de capital e tecnologia estrangeira, sobretudo na década de 70, na chamada fase do milagre brasileiro.”São essas três etapas conjunturais do processo de modernização do país que funcionam como condições de produção do romance (escrito de 1958 a1970) e, conseqüentemente, como interlocutores em relação aos quais o texto de Suassuna busca recuperar uma ordem perdida, um mundo “fidalgo” e cavalheiresco anterior à industrialização.A imagética bíblica do êxodo: uma ilusão compensatóriaOs dados ficcionais que ajudam a explicitar a reação do narrador Quaderna aos contextos históricos assinalados estão disseminados ao longo do romance. Eles concentram-se principalmente no “folheto LXII, O Almoço do Profeta”, onde o narrador parafraseia vários trechos bíblicos do Êxodo. Os capítulos e versículos parafraseados referem-se à fuga dos judeus do Egito em busca da terra prometida, à perseguição ao povo israelita pelo exército do faraó, à morte dos soldados egípcios no Mar Vermelho, ao cântico entoado por Moisés e pelos demais filhos de Israel em louvor a Jeová, às tábuas da Lei entregues por Deus ao profeta hebraico, à construção da arca da aliança.9 Estes encaixes intertextuais, reajustados n’A Pedra do Reino ao projeto messiânico do Quinto Império, são vistos aqui como uma transposição alegórica da temática do judaísmo ao contexto nacional que informa subjacentemente a fabulação narrativa. Transcreva-se a passagem do romance:“Quando chegar o Século do Reino, e for anunciada a Vigília de fogo, o Senhor enviará a Coluna de brasas sobre o acampamento e o território dos estrangeiros e dos criminosos e poderosos aliados seus. A Onça de fogo do Sertão destruirá seus Exércitos, despedaçando as rodas dos carros-de-combate, e todos os traidores serão arrojados do Sertão para o fundo do Mar. Dirão assim os Estrangeiros: – ‘Fujamos dos Brasileiros e outros Latinos, porque o Deus de Fogo peleja a favor deles e contra nós!’ E o Deus de Fogo dirá a Quaderna: – ‘Estende a tua Mão desde a Pedra do Reino até o mar, para que as águas de Sal se voltem contra os Estrangeiros e corroam seus Carros diabólicos, suas máquinas de fogo e sua cavalaria de engenhos de chamas!’ E assim será! Quando Quaderna estender sua mão, quando o Rei brandir o seu Cetro e o Profeta seu Báculo, o Príncipe do Povo, o Moço do Cavalo Branco será suscitado e o mar fará soçobrar os traidores, refluindo depois, ao amanhecer, para o lugar que ocupava. Naqueles dias, o Rei escreverá um Canto para ensinar ao Povo do Brasil, aos filhos do Sertão do Mundo. E depois de suscitado o Príncipe pelo Canto, o Senhor do Fogo ordenará a Sinésio, filho de Dom Pedro Sebastião, dizendo: ‘Anima-te, sê forte e tem coragem, porque tu farás entrar os Filhos do Sertão no Reino que lhes prometi, e eu estarei com o Povo’. Como de fato: logo que Quaderna acabar as palavras deste Canto e desta Lei no seu Livro, ordenará aos Sertanejos que levem a Arca de Pedra da Aliança do Senhor do Fogo, dizendo: ‘Tomai este Livro e enterrai-o ao pé das Torres de pedra da Catedral encantada do Reino, para que ele sirva de fundamento e pedra-angular para o Império do Brasil.’ E quando os Estrangeiros fugirem, desbaratados, juntamente com os traidores que os apóiam, encontrar-se-á o sagrado Deserto do Sertão com as Águas salgadas e sagradas do mar. Assim, naquele dia, o Senhor do Fogo livrará o Sertão, e o Povo verá seus inimigos mortos na Praia do mar, pelo castigo que a mão poderosa da Divindade executará contra eles, contra sua injustiça, sua dureza e sua iniqüidade. Então Quaderna, subindo à sua Pedra, entoará com o Povo o sagrado Canto que o mesmo Quaderna fez, dizendo: ‘Cantemos ao Deus de Fogo do Sertão, porque ele manifestou gloriosamente seu poder, precipitando no Mar as máquinas e as empresas, os engenhos infernais dos Estrangeiros e traidores, castigando a força e o opróbio dos Poderosos que nos oprimiam e exaltando o Sertão, com sua coragem, suas pedras, seus espinhos, seus cavalos e seus Cavaleiros’!“ (Suassuna, 1976, p. 459-461).O exemplo transcrito emprega a mesma imagética escatológica que assinala no Êxodo a destruição das tropas egípcias e a salvação dos judeus, conduzidos por Moisés à terra de Canaã. Acoplada à temática sebastianista do romance, a simbologia bíblica se aplica, todavia, a uma outra realidade cultural, ajustando-se, assim, ao contexto histórico a que se dirigem as críticas de Quaderna: o contexto desenvolvimentista acima especificado. O deslocamento histórico pressupõe, portanto, algumas readaptações no texto matriz, sem que se perca, contudo, o sentido simbólico das imagens teológicas tomadas de empréstimo ao suporte textual que subsidia o discurso do narrador. Desta forma, o tema do êxodo judaico, transplantado para o universo do sertão, instaura uma correspondência semântica entre judeus e sertanejos, de um lado, e egípcios e estrangeiros, do outro lado. Os primeiros consubstanciam-se como os eleitos de Deus a quem está destinada a terra da promissão. Os segundo como as hostes do mal, os alienígenas sobre quem recai(rá) o castigo da divindade. A analogia com esse episódio do judaísmo se apresenta, pois, como um mecanismo ideológico de que a narrativa lança mão para legitimar a crítica que empreende à penetração do elemento estrangeiro no território nacional. No projeto messiânico do romance, a profecia escatológica do extermínio do alienígena com o advento do Século do Reino assinala – via simbologia bíblica – o retorno à imagem idealizada de um mundo cultural arcaico, isento da contaminação nefasta dos componentes exógenos, representantes do capitalismo industrial. Convertendo o sertão numa nova Canaã e os sertanejos no novo povo eleito, o texto desloca para o plano mítico-teológico a situação histórica do Brasil no contexto em pauta, isentando-se, assim, de um confronto com a estrutura sócio-econômica derivada do modo de produção capitalista responsável pelo acirramento das contradições sociais e pela permanência do subdesenvolvimento das regiões mais atrasadas do país. O processo de deslocamento serve, então, simultaneamente, para desvendar e encobrir o descompasso entre a realidade industrial e burguesa dos centros urbanos hegemônicos (a região Sudeste) e a realidade subdesenvolvida e patriarcal do Nordeste. A crítica pretendida pelo narrador ao sistema capitalista termina por se diluir em otimismo. A imagética paradisíaca projetada sobre o sertão com o vaticínio da chegada do Século do Reino funciona, para usar um raciocínio de Antonio Candido (1987), como “instrumento de afirmação nacional” e “justificativa ideológica”. A projeção utópica transforma-se, assim, em “ilusão compensatória” da miséria da região sertaneja. Ou, empregando as palavras de Roberto Schwarz (1987), em “interpretação triunfalista do nosso atraso”.NOTAS 1.Utilizamos o termo tradução, por oposição à ‘Tradição’ no sentido que lhe é atribuído por Robins na esteira de Homi Bhabha, ou seja, o processo pelo qual o sujeito no contexto da globalização, incorpora outras identidades e valores de sua origem cultural e passa a posicionar-se a partir de um “entre-lugar” discursivo duplo e ambivalente. Como diz Stuart Hall, buscando situar o pensamento de Robins em consonância com o de Bhabha: “Algumas identidades gravitam ao redor daquilo que Robins chama de tradição, tentando recuperar sua pureza anterior e recobrir as unidades e certezas que são sentidas como tendo sido perdidas. Outras aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da história, da política, da representação e da diferença, e, assim, é improvável que elas sejam outra vez unitárias ou ‘pura’; e estas conseqüentemente, gravitam ao redor daquilo que Robins seguindo Homi Bhabha, chama de ‘Tradução’” (HALL, 2002, p.87). As respectivas utopias representadas no romance de Ariano Suassuna e J.J. Veiga, parecem ilustrar esse movimento contraditório entre Tradição e Tradução. 2.A data com que se assinala o movimento de Padre Cícero delimita o período de sua chegada a Juazeiro até sua morte. No entanto, ele só é reconhecido taumaturgo, e portanto, como líder messiânico a partir de 1889 conforme assinala Queiroz (1976, p. 253-255).Para a descrição dos movimentos messiânicos elencados vê as páginas 216 e 268, da obra acima mencionada nesta nota.3.O Século do Reino é delimitado temporalmente no âmbito da narrativa de Suassuna pelo intervalo decorrido entre dois acontecimentos, um histórico, outro ficcional:A eclosão do movimento messiânico d’A Pedra do Reino em 1835 e o “miraculoso retorno de Sinésio, O Alumioso, personagem que representa a figura de Dom Sebastião no presente textual, cuja volta a Taperoá ocorre justamente em 1935, ou seja, cem anos após o primeiro evento mencionado.4.Na explicitação de seu projeto literário, Quaderna se propõe a compor uma epopéia, ou melhor, “um gênero literário novo, o Romance epopéico”, “uma espécie de Sertaneida, Nordestíada ou Brasiléia”, parecida com a do senador Augusto Meira (Suassuna, 1976, p. 185).5.Na explicitação de seu projeto literário, Quaderna se propõe a compor uma epopéia, ou melhor, “um gênero literário novo, o Romance epopéico”, “uma espécie de Sertaneida, Nordestíada ou Brasiléia”, parecida com a do senador Augusto Meira (Suassuna, 1976, p. 185).6.O Catolicismo Sertanejo do projeto messiânico de Quaderna funde, através da imagem emblemática da Onça Malhada (animal que representa o ideário Armorial do autor), as figuras bíblicas do Novo e Velho Testamento, ou seja, a divindade do Catolicismo Romano e a do Judaísmo, Deus e Jeová.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. de Myriam Ávila et all.Belo Horizonte: Ed da UFMG, 2001.CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In: _______. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987 (série temas, v 1).DANTAS, Paulo. Capitão Jagunço. 5 ed rev e def. São Paulo: Global, 1982.FONSECA, Aleiton Santana. Capitão sim: jagunço também (o discurso do narrador no romance Capitão Jagunço) In: BRONZEADO, S. L.Ramalho de Farias (org.) Caderno de textos regionalismo e literatura. João Pessoa: Curso de Pós-Graduação em Letras da UFPB, série II (3), 1990.GALVÃO, Walnice Nogueira. Sacos de gatos: ensaios críticos. São Paulo: Duas cidades, 1976._________. Gatos de outro saco: ensaios críticos. São Paulo: Brasiliense, 1981.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad.Tomas Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Lauro. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.MONIZ, Eduardo. A guerra social de Canudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978 (Col. 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Author: Sônia Ramalho de Farias
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O rural e o urbano nas profecias revolucionárias de Jorge Amado e Glauber Rocha: Seara vermelha e Deus e o diabo na terra do sol

“Essas coisas se passaram no sertão, onde a fome cria bandidos e santos” (Jorge Amado, Seara vermelha, p. 239).

Em diferentes momentos do processo histórico e cultural brasileiro dois intelectuais, um romancista, Jorge Amado, outro cineasta, Glauber Rocha, empreendem em suas respectivas obras ficcionais, Seara vermelha (1946) e Deus e o diabo na terra do sol (1964)[1], uma reflexão crítica e polêmica sobre dois espaços geográficos e dois contextos socioculturais, o rural e o urbano, atribuindo-lhes fortes conotações simbólicas: o atraso e o progresso, a caatinga e a seara, o sertão e o mar, as forças da permanência e as formas da revolução social. Medeiam essa discussão os temas do messianismo e do cangaço, que elegem como possibilidade de pensar a superação do atraso e do subdesenvolvimento do sistema coronelista e latifundiário do Nordeste, na sua fase de transição da estrutura rural oligárquica para a estrutura urbana e burguesa.
A representação ficcional desses dois espaços é informada pelas respectivas orientações ideológicas que norteiam os projetos estéticos dos autores. No caso de Jorge Amado, a ideologia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), responsável pelo “realismo socialista” da fase romanesca do escritor, caracterizada pela vinculação entre projeto político e projeto literário. No caso de Glauber, de forma menos óbvia e direta, pelas idéias desenvolvimentistas em vigor desde as teses do tenentismo (cf. Santa Rosa, 1976) na década de 20, que prenunciam a Revolução de 30, intensificadas a partir dos anos 50 no governo de Juscelino Kubitschek com as teorias nacionalistas do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) sobre a questão da dependência econômico-cultural e do processo de desenvolvimento do Brasil como projeto nacional (cf. Toledo, 1977). E presentes ainda no início dos anos 60, tanto no cenário político do país, como no cenário artístico e cultural, neste último caso nas orientações estético-políticas do Centro Popular de Cultura (CPC) e nas discussões do “Cinema Novo”, ambas permeadas pelo debate em torno do conceito de uma arte revolucionária nacional-popular.
Considerando a inserção dos dois autores e de suas produções estéticas aqui contempladas nas correspondentes etapas conjunturais postas em destaque (os anos 40 e os anos 60), Jorge Amado e Glauber Rocha se situam no panorama da produção artística e literária brasileira numa vertente que se pode chamar de vertente progressista no tocante à percepção do processo histórico do país. Aproxima-os nessa vertente a postura crítica comum (não sem ambigüidades) diante da estrutura arcaica da República Velha e de suas formas sociais de manifestação: coronelismo, cangaço e misticismo religioso, por oposição a uma outra vertente que tematiza esse processo e essas formas através de uma perspectiva predominantemente conservadora, a exemplo dos romances Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros, (1953), de José Lins do Rego, e A Pedra do Reino (1971), de Ariano Suassuna2.
Identificados por essa postura comum face ao espaço regional do Nordeste, os dois autores não apresentam, no entanto, uma perspectiva unívoca quanto às soluções revolucionárias que desejam para o país através de suas produções ficcionais. Distingue-os o encaminhamento dado a essas soluções na cena romanesca e na cena fílmica. Na esteira das idéias do Partido Comunista, Seara vermelha representa o advento da revolução social sem atentar para o processo de desenvolvimento capitalista do país. Ao contrário, estabelece a passagem direta do mundo rural – representado na obra através de um processo de feudalização – para a sociedade socialista. A classe economicamente desfavorecida do espaço agrário nordestino, os “camponeses,” denominação dada no texto ao homem do sertão, constituem a força de rebeldia capaz de empreender essa revolução, mediante um estágio na cidade, onde são introduzidos ao marxismo pelas “células” do Partido Comunista. O romance descarta, assim, o papel das classes médias urbanas e da Revolução de 30, responsáveis pelo processo de industrialização que projeta o Brasil no cenário econômico mundial. A revolução socialista, neste caso, é uma revolução que queima etapas. A tendência seguida por Glauber Rocha em Deus e o diabo, diferentemente da do autor de Jubiabá, é uma tendência etapista. Pressupõe a necessidade de modernização industrial como meio de superação do setor rural, responsável pelas manifestações “primitivas” do atraso, para se chegar depois ao estágio socialista. Nesta ótica, comprometida com o projeto de modernização via desenvolvimentismo, ele defende para o Cinema Novo uma nova estética, a “estética da fome”, colocada a serviço da política de conscientização do povo em nome de uma verdadeira consciência nacional.


Os projetos estético-ideológicos dos dois autores: realismo socialista, romance proletário(Jorge Amado) e a estética da fome (Glauber Rocha)


Tanto nos textos de Glauber Rocha sobre o Cinema Novo, como nos ensaios e na literatura da fase política de Jorge Amado, tem-se uma concepção de arte como instrumento de conscientização das “massas”. Desalienar o povo por meio da elaboração artística constitui em momentos diferentes e segundo orientação diversa o objetivo perseguido por ambos os intelectuais nos seus respectivos contextos de produção.
Em Jorge Amado, essa concepção está estreitamente ligada às noções de “realismo socialista” e de “romance proletário” orientadas direta ou indiretamente pelo aparelho partidário e pela sua condição de intelectual militante. No discurso proferido por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras, ele faz um retrospecto de sua trajetória como escritor. Preocupa-se, então, em ressaltar os compromissos e a fidelidade que o mantiveram sempre ligado às causas populares em pró das quais procura emprestar sua voz. O texto frisa a coerência entre a ação do homem e a do literato, fazendo de ambas uma unidade indissociável:

Penso [...] poder afirmar que chego a vossa companhia pela mão do povo, pela fidelidade conservada aos seus problemas, pela lealdade com que procurei servi-lo, tentando fazer de minha obra arma de sua batalha, contra a opressão, pela liberdade, contra a miséria e o subdesenvolvimento e pelo progresso [...] fiz de minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor (Amado, 1969, p. 9).

Nesta indistinção entre militante político e produtor intelectual, o discurso coordena intrinsecamente as concepções literárias do romancista aos ideais de progresso preconizado para a nação. O conceito de literatura como combate e conscientização política corresponde aos anseios por um Brasil moderno. Livre das amarras do atraso e da opressão. Voltado para um futuro promissor a ser construído pelas mãos de um “escritor político e participante”. Cabe a este avaliar os desacertos do país em busca de soluções para os problemas nacionais, como ocorre também com os “intelectuais proletários” de seus romances em quem se vê projetado. Como diz Almeida (1979, p. 202), referindo-se ao engajamento de seus personagens, que é também o do próprio autor: “O homem de ação [...] passa a encarnar a conduta literária na conduta política”.
“Escrever para o povo” é uma preocupação manifesta em diversas oportunidades pelo romancista. Através dela define o papel que lhe cabe enquanto produtor de bens simbólicos: o de servir de porta-voz (iluminado) das reivindicações e esperanças das classes economicamente desfavorecidas, mas não apenas dessas, pois seu conceito de povo é muito amplo, envolve “inúmeras camadas sociais, diversas categorias profissionais que compreendem pressupostos mais ou menos letrados, e reduz as distinções entre elas” (Almeida, 1979, p. 202). A tarefa de conscientizar e educar aqueles para os quais sua literatura se quer voltada equivale ao intento de garantir para a nação novos caminhos. Tarefa que estende a outros companheiros de ofício e de geração. No seu artigo da antologia O Partido Comunista e a liberdade de criação, dedica-se ao exame das tendências da produção literária e artística da década de 30, evidenciando os objetivos perseguidos pelos intelectuais brasileiros da época, no afã de despertar a consciência da “grande massa ávida de cultura”, a quem pretendem destinar o produto de suas realizações estéticas:

Os escritores e artistas brasileiros modernos, na última década, procuraram, sem dúvida, percorrer um caminho construtivo. Um caminho de educação do povo, de esclarecimento popular, de levantamento de nossos problemas e também da perspectiva técnica e formal, procurando colocar o conteúdo da nossa arte numa forma simples e pura mais próxima e accessível à grande massa ávida de cultura. (Amado, 1946, p. 30-31).

O artigo, inserido na coletânea publicada no mesmo ano da primeira edição de Seara vermelha, enfatiza o papel do intelectual “moderno” na construção da nação, seu empenho em transformar a sociedade via literatura. Esse projeto político-pedagógico para a arte pressupõe uma concepção utilitária de linguagem como instrumento social de desalienação, veículo de expressão dos desfavorecidos, uma linguagem quase referencial que busca “numa forma simples e pura”, fotografar, nos moldes naturalistas, as mazelas de um país subdesenvolvido, dando-lhes visibilidade, mas ao mesmo tempo desejando sanar suas contradições através de uma “teleologia materialista tranqüilizadora”. (Sussekind, 1984, p.160-161). Tal concepção pragmática de linguagem vincula-se aos preceitos do “realismo socialista”, conforme o entende o romancista em consonância com a definição dada ao termo nos estatutos da União dos Escritores Soviéticos, transcrito pelo autor em O mundo da paz (1952):

O realismo socialista, sendo o método de base da literatura e da crítica soviéticas, exige do artista uma representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário. O caráter verídico e historicamente concreto desta representação artística deve combinar-se com o dever de transformação ideológica e de educação das massas no espírito do socialismo (Amado, apud Almeida, 1979. p. 223).

Os subterrâneos da liberdade constituem o único exemplo declarado pelo autor de aplicação dos pressupostos desse conceito de realismo, sendo o livro a partir do qual se intensifica na cena literária brasileira o debate em torno da questão envolvendo Jorge Amado, que passa, a partir daí, a ser considerado como o precursor do realismo socialista, o seu introdutor no país (Almeida, 1979, p. 217-230). O conceito, no entanto, pode ser estendido aos outros romances da fase política do autor, inclusive Seara vermelha, cuja vinculação doutrinária aos ditames do partido e cujo intento de conscientização política e transformação social articulam-se a uma concepção documental e instrumentalista de verdade, nos moldes do realismo socialista. Afinal, como diz o autor, a “literatura do realismo socialista” é uma “literatura de partido” ( Amado apud Almeida, 1979. p. 224).
Aliada ao conceito de realismo socialista, a obra de Amado dessa fase revolucionária envereda pelas discussões em torno do “romance proletário” no Brasil. A questão é colocada pela primeira vez em nota introdutória a Cacau (1933), onde Amado encampa a definição de Agripino Grieco sobre o gênero. Segundo esclarece ainda Alfredo Berno de Almeida (1979, p. 93), “O romance que tem como tema a descrição do modo de vida do proletariado, na interpretação do crítico Grieco, pretende tornar-se um romance desta classe para o autor”. Essa autodefinição do gênero corresponde não só às características do romance de 1933, como às dos que lhe sucedem imediatamente, Suor (1934), Jubiabá (1935), podendo tangenciar outras produções romanescas do autor, a exemplo do romance de 46, cujo personagem Juvêncio é apresentado após sua adesão ao PCB como líder operário.
Embora não haja no contexto em que Amado escreve um consenso em torno das teorias acerca do gênero, adotado por escritores nem sempre vinculados a uma organização partidária, no escritor baiano esse conceito vincula-se às concepções do PCB, embora inexistam, como lamenta Almeida (1979, p.111), estudos sobre a programação política e cultural do partido que tornassem possíveis depurar devidamente “as relações entre as noções de romance proletário em vigor e a orientação partidária correspondente”.
A partir da autodefinição de Amado compreende-se o sentido que confere ao romance proletário. Este, como já mostrou Almeida (1979, p. 113), “não é uma literatura exclusiva para proletários ou não é uma literatura para ser lida somente por eles”. Tampouco o proletário tematizado nos romances do escritor baiano constitui-se como proletariado urbano e industrial. Ao contrário, são trabalhadores rurais que nas cidades transformam-se em operários: “tipógrafos”, “estivadores”, “lumpemproletariado”, “empregados de bondes”. Alguns desses “proletários”, como é o caso do já citado Juvêncio em Seara vermelha, devidamente doutrinados pelo PCB, adquirem um alto grau de conscientização política e voltam para o campo para fomentar a ação revolucionária.
A questão da conscientização política via arte é posta por Glauber Rocha através de pressupostos e postulados diferentes dos do escritor baiano. Sem nenhuma orientação doutrinária, o cineasta pensa esse processo pela mediação de um procedimento estético “a estética da fome”. Em Revolução do cinema novo, Glauber define a “estética da fome” como uma estética da violência capaz de empreender o processo de descolonização cultural do Brasil:

[...] uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino (Glauber, 1981, p. 31-32 – grifo do autor).

Pensada como forma de ultrapassar a dependência cultural, essa estética revolucionária define-se na sua proposta “épico-didática” pelos conceitos de nacional-popular em voga no Brasil desde meados dos anos 50, com a fase do arranco desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitschek, quando se deu o aceleramento do processo de industrialização no país e o conseqüente aguçamento da consciência de defasagem cultural entre as diversas classes. Nesse contexto, onde se destacam as idéias do CPC sobre o nacional-popular, passa a vigorar a tese, responsável pelas alterações nas concepções de cultura popular até então vigentes, de que a cultura popular não designa mais apenas “a cultura que vinha do povo, mas sim a que se fazia pelo povo. A cultura popular é então conceituada como um instrumento de educação, que visa dar às classes economicamente (e ipso facto culturalmente) mais desfavorecidas uma consciência política e social” (Leite, 1986, p. 185 – grifo do autor). É nessa acepção que Glauber defende para o Cinema Novo a idéia de um cinema revolucionário nacional-popular, o “cinema do autor”, contraposto às formas estereotipadas do cinema comercial, tanto aos estereótipos das chanchadas nacionais, quanto às formas padronizadas da indústria cinematográfica hollywoodiana e européia: “eu pensei num cinema nacional popular, e num cinema revolucionário popular, num cinema épico-didático, porque fundamentalmente estava pensando no cinema” (Rocha, 1970, apud Gerber, 1972, p. 28).
Nesse contexto, a idéia de cultura nacional encontra-se indissociavelmente ligada à de popular como expressão de uma vanguarda intelectual progressista que assume as manifestações culturais vindas do povo como estratégia de comunicação, mas reelabora-as criticamente, visando à conscientização deste mesmo povo. Não obstante algumas divergências do Cinema Novo em relação às teses do CPC, especificamente no que se refere a uma concepção estreita de realismo, que orientou, de certa forma, as concepções do grupo em torno da procura de uma arte popular que visasse, através de esquemas rígidos e estratificados, uma maior eficácia de comunicação junto ao público, em vários aspectos este cinema ainda está vinculado à proposta cultural do Centro. Especificamente no que diz respeito às tensões entre a valorização do popular (usando agora o termo no seu sentido tradicional), enquanto forma de reivindicação das classes oprimidas e a deslegitimação do popular, enquanto conteúdo, concebido como alienação.
A este propósito são bastante significativos os depoimentos dos intelectuais que participaram do debate sobre Deus e o diabo na terra do sol, do qual fez parte o próprio Glauber. Realizado em 24 de março de 1964, sob o patrocínio da Federação dos Clubes de Cinema do Brasil e do Grupo de Estudos Cinematográficos da União Metropolitana de Estudantes (UME), o debate encaminha as discussões sobre o filme em torno do conceito de cultura popular, que norteava o pensamento da intelectualidade brasileira na época. Neste sentido, são levantadas as questões do filme face à sua recepção junto ao público e repassados os conceitos de alienação e conscientização. Todos os participantes são unânimes em afirmar a função desmistificadora e desalienadora do filme glaubiano. Vale conferir o depoimento do próprio cineasta:

Aliás, [...] sobre todo esse problema de desalienação, quero registrar aqui no debate que eu pretendi desalienar as personagens para, uma vez desalienando-as, criar uma identificação delas com o público [...] esse problema de cultura popular, de o teatro ou o cinema atingir as massas, politizando-as, eu acho que o método assim achado é um método que da ao espectador uma liberdade de assumir uma consciência possível. Na medida em que se dá ao espectador um tipo acabado – parece, aliás, que essa é a maior contradição de toda a polêmica em torno da cultura popular [...], um tipo reduzido, um tipo estratificado, um tipo dentro dessa tradição, não se dá a menor possibilidade de diálogo com o espectador [...] (Rocha, 1965, p.148).

Negando o simplismo formal do CPC, por meio do qual se pretendia a transposição “mecânica dos processos sociais” (Galvão e Bernardet, 1983, p. 151), mas enfatizando nesta negação o conceito de alienação relativo às manifestações artísticas vindas do povo, Glauber Rocha oscila entre um tipo de produção vinculado ao projeto populista e seu débito para com este mesmo projeto.
Sem pretender reduzir a obra dos dois autores aos seus projetos estético-literários e às intenções autorais, não se pode deixar de considerar as marcas que as condições de produção imprimem no tecido ficcional do romance e do filme. Ao contrário, é atentando para essas marcas que se pretende acompanhar aqui as ambíguas representações do messianismo e do cangaço em Seara vermelha e Deus e o diabo na terra do sol, buscando compreender simultaneamente as suas respectivas profecias revolucionárias.

Seara vermelha e Deus e o diabo: um confronto

O elemento central que deflagra a trama narrativa de Seara vermelha e Deus e o diabo na terra do sol reside na questão fundiária do Nordeste, na estrutura oligárquica coronelista, que engendra o antagonismo de classe expresso no confronto imediato entre “camponeses” e latifundiários como “etapa imprescindível ao processo produtivo da zona rural”(Almeida, 1979). Numa das epígrafes do romance de Jorge Amado, o autor denuncia pela voz de Luís Carlos Prestes, então Secretário Geral do PCB, a origem dos males que afligem o homem do campo: “(...) está no latifúndio, na má distribuição da propriedade territorial, no monopólio da terra, a causa fundamental do atraso, da miséria e da ignorância do nosso povo” (Prestes, apud Amado, 1981, p.11). No final de Deus e o diabo, após o assassinato de Corisco por Antônio das Mortes, o cego cantador – que, sem participar da ação diegética, conduz o fio da narrativa como testemunha ocular dos fatos – explicita a sua versão da estória, incitando o espectador a interiorizar a lição, narrada em termos de fábula3:


Tá contada a minha estória
Verdade, imaginação
Espero que o sinhô tenha tirado uma lição:
Que assim mal dividido
Esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem,
Não é de Deus nem do Diabo!
(Rocha, 1965. p. 114).

No tom doutrinário das palavras do líder político e no acento moralizante da canção do poeta nordestino tem-se a contextualização da matéria histórica do sertão, relativizada no seu teor de veracidade pela voz do vate sertanejo (verdade/imaginação). Num e noutro, a perspectiva de denúncia coincide com a ótica progressista das duas obras. Antecipa-se na epígrafe que antecede a ação narrativa e arremata-se no epílogo que fecha os acontecimentos do filme em forma de canção todo o conflito dramatizado no interior da diegese. Conflito em torno do monopólio da terra, envolvendo como protagonistas as forças da permanência decorrentes do atraso e subdesenvolvimento da estrutura agrária do Nordeste: o coronel, representante do “mandonismo local”, o cangaceiro e o beato, formas “primitivas” e “alienadas” da revolta popular, conforme a ótica das obras, postas em ambas as tramas para serem superadas pelas formas da revolução social.
A estrutura do romance dispõe esse conflito e sua utópica resolução em quatro partes: um prólogo, significativamente intitulado “A seara”, numa alusão ao modo de produção rural; a narrativa propriamente dita, subdividida em duas partes: a primeira, “Os caminhos da fome”, cujo título remete à migração nordestina para São Paulo (“a terra da promissão”); a segunda, “As estradas da esperança”, onde se tematizam as formas alternativas de enfrentamento da ordem coronelista, o cangaço, representado por Zé Trevoada e Lucas Arvoredo, o messianismo, simbolizado pelo beato Esteves, e a ação revolucionária da “classe operária”, o operariado rural, a ser deflagrada num futuro próximo por Juvêncio (Neném) sob a orientação doutrinária do PCB. A quarta parte, o “Epílogo”, retoma ciclicamente na metáfora agrícola do título, “A colheita”, a imagética da seara, fertilizada agora pela semente da revolução: “os brotos de dor e revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita”. (Amado, 1981, p. 335).
O filme de Glauber apresenta uma estrutura mais ou menos similar a de Seara vermelha. Dividindo-se basicamente em duas partes, messianismo (beato Sebastião) e cangaço (Corisco), possui também uma introdução – onde se registram os acontecimentos que motivaram a entrada de Manuel no messianismo – ­­e um epílogo, a corrida de ex-vaqueiro Manuel e sua mulher Rosa pela caatinga do sertão em direção ao mar, acompanhada da cantiga do cego atrás mencionada. A canção do epílogo, como a metáfora da seara em Jorge Amado, remete também ciclicamente para a primeira seqüência do filme onde a estória é anunciada pela primeira vez na voz do cantador:

Vou contá uma estória
Na verdade e imaginação
Abra bem os seus olhos
Pra escutar com atenção
É coisa de Deus e Diabo
Lá nos confins do sertão.
(Rocha, 1965, p. 33).

Os epílogos de cada uma das obras introduzem um elemento diferencial ao que fora apresentado nas suas respectivas seqüências inicias. Isto é, o redimensionamento semântico da seara em Jorge Amado, pelo adjetivo “vermelha,” e da terra, em Glauber Rocha, através do adjunto adnominal “do homen,” que neutraliza a dimensão metafísica inicial, apontam para a ação revolucionária utopicamente projetada. Aproximados por esta estrutura cíclica suplementar, o romance e o filme possibilitam uma leitura conjunta em busca de suas semelhanças e diferenças.

As forças da permanência: messianismo, cangaço e as formas da revolução social


Embora postas para serem negadas pela perspectiva marxista de seus autores, no romance e no filme as formas de rebeldia ligadas ao mundo rural nordestino, o misticismo e o cangaço, não se reduzem a uma perspectiva unívoca que os dispusessem em um esquema bipolarizado face ao poder institucional: ordem/desordem, civilização/barbárie, bem/mal, conforme sucede com o primeiro romance a tematizar o cangaço na literatura brasileira: O Cabeleira (1876), de Franklin Távora. Ao invés, esses fenômenos sociais surgem nas obras de Amado e Glauber mediados pelas manifestações culturais populares, a cantoria, o cordel, e pela heterogeneidade de vozes que, ao lado da poesia popular, compõem como persona a fabulação da estória. Neste sentido, e apenas nele, adotam procedimento semelhante a outros dois ficcionistas nordestinos aqui já mencionados, José Lins do Rego e Ariano Suassuna, cujas respectivas obras, Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), e A Pedra do Reino (1971) acercam-se desses mesmos temas através do imaginário popular do sertão ( Farias, 2006).
Interagindo no tecido ficcional e não apenas dispostos como apêndice à trama narrativa, para citarmos ainda o exemplo oposto de Távora, as formas de expressão estéticas correlatas ao homem do sertão não constituem simples matéria ilustrativa do aspecto regional das obras. São, diferentemente, o substrato que alimenta seu processo construtor, estabelecendo uma adequação entre o tema e a forma que o constitui. Bem mais intenso no filme do que no romance, onde esse mecanismo estrutural ainda é cerceado pela voz do narrador, as imagens do cangaceiro e do beato apresentam-se, segundo diz Ismail Xavier (1983, p. 150), referindo-se a Deus e o diabo na terra do sol, “marcada [s] pelo impulso de interpretações abrangentes das formas de vida e de consciência presentes no Nordeste rural”. As figuras do cangaço e do messianismo, deflagradas por essa perspectiva abrangente, desempenham no universo ficcional dos dois autores papéis e funções opostos, mas não mutuamente excludentes. São acatadas positivamente como forças pré-revolucionárias e condenadas em nome das transformações sociais como alienação.
Em Seara vermelha, o ABC cantado pelo tocador Bastião a pedido do bando de Lucas Arvoredo, registra, na sua imagética oscilatória, a ambivalência através da qual o cangaceiro é percebido no imaginário rural:

Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil.
O sertão treme de medo,
Já matou pra mais de mil...
[...]
Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil...
Menina, não tenha medo,
Meu apelido é gentil...
[...]
(Amado, 1981., p. 222).

Nas estrofes sucedem-se alternadamente a imagem do terror e da violência e a da gentileza e sedução, oscilando o ABC entre uma valoração positiva e outra negativa do “fora da lei”. Neste movimento pendular, o “rebelde primitivo” conforma-se tanto à imagem do “bandido nobre” de que fala Hobsbawn (1976, p. 36), quanto à do seu oposto: o cangaceiro vingador, cuja crueldade não encontra limites. A vingança pela perda da terra é, aliás, o motivo apontado por Arvoredo para entrar no cangaço: “Nóis tava bem de seu em nossa terra, viero e tomaro ela [...] Matei o homem, caí no cangaço [...] tou é me vingando” [sic]. ((Amado, 1981, p. 219). “Malvadeza” e “generosidade” são os termos através dos quais o personagem é configurado nas reflexões do tocador, (cf. Amaro,1981 , p. 221). De forma análoga, ferocidade e inocência coabitam na descrição que o narrador faz do bando, diante de um brinquedo de mola, num de saques dos cangaceiros pela cidade: “Vestidos de couro, armados até os dentes, revólveres, fuzis e punhais, os rostos ferozes, as barbas crescidas, um odor fétido, mas inocentes e puros, rindo admirados, felizes como criança ante o esperado brinquedo” (Amado,1981, p. 202). Os exemplos dessa dubiedade imagética multiplicam-se ao longo da narrativa e configuram também a forma ambígua como o cangaceiro se insere na estrutura coronelista, funcionando ao mesmo tempo para a contestação e manutenção da ordem vigente.
A representação do messianismo acompanha essa lógica dual, responsável pela simultânea valorização e desvalorização do fenômeno. Concebido no texto como a segunda forma alternativa para o enfrentamento da ordem coronelista, o beato é visto sob a ótica da comunidade sertaneja, referendada em vários momentos pela do narrador, como uma forma de resistência ao mandonismo local, embora suas prédicas desloquem para a esfera do sobrenatural as soluções para os conflitos sociais. Eis como sua entrada em cena na narrativa é descrita pelo narrador: “[...] os coronéis tomando a terra dos lavradores, os imigrantes partindo em levas sucessivas para o Sul, os cadáveres ficando pelas estradas [...] apareceu o beato” (Amado, 1981, p. 235).
No contexto adverso do sertão, o prosélito do messianismo, à semelhança da figura paradigmática de Padre Cícero do Juazeiro, através da qual é forjada a sua imagem, torna-se o suporte mítico de todas as crenças, repositório dos valores mais autênticos, ponto de conexão das carências e anseios de justiça da população oprimida, conforme atestam as várias conotações simbólicas que assume no romance.
Analisando a ideologia dos romeiros nordestinos na literatura de cordel, através das figuras messiânicas de Padre Cícero e Frei Damião, Rejane Vasconcelos Accioly de Carvalho (1972, p. 117-118) atenta para dois aspectos pelos quais as relações “Salvador”- romeiro são percebidas. São elas: a “identificação” e a “detenção do poder”. A elaboração mítica do poder do “Salvador” é, segundo a autora, uma decorrência da percepção que têm os dominados do caráter hostil do poder terrestre, sempre identificado à posse de terra e riqueza. Em conseqüência, o imaginário popular engendra para o “Salvador” um poder que, por ser de outra ordem, ou seja, de dimensões extraordinárias “assume uma conotação de contestação das camadas dominadas face às bases do poder social que os oprime” (Carvalho, 1977, p.118).
As referências à figura do beato em Seara vermelha se inscrevem - através da fala e reflexões dos personagens socialmente desfavorecidos - sob essa perspectiva mítica, atualizando-se-pelos mesmos mecanismos de “identificação” e “elaboração do poder”. As pregações apocalípticas contra os ricos e poderosos, a proposta da distribuição de riquezas pela inversão dos papéis sociais, a contestação à propriedade privada engendram uma identificação da comunidade sertaneja com o líder messiânico. Anexada à percepção de seu poder de taumaturgo, essa identificação conflui para o forjamento da imagem do beato como “santo” e “salvador”. Segundo se pode constatar nas palavras da personagem Zefa, uma de suas seguidoras: “Foi Deus que mandou ele, veio numa nuvem de fogo, quem não obedecer a ele tá condenado... Ele é o santo de Deus, é a língua de Deus, é os oio de Deus” [sic]. (Amado, 1981, p. 251). A imagem do fogo que atesta na fala da personagem o poder sobrenatural do beato vem se juntar, no discurso do narrador, às metáforas extraídas do campo semântico da natureza para caracterizar a figura imponente do “Salvador”, o seu poder de resistir às intempéries e vicissitudes do mundo rural: “Semelhava uma árvore majestosa, um rio caudaloso, uma cachoeira ruidosa [...] balançava ao vento como um bambu, tinha resistência de ferro” (Amado, 1981, p. 235).
Num movimento que contradiz o perfil acima delineado, o texto contrapõe as imagens de “santo”, “salvador” e “taumaturgo”, através das quais a comunidade rural empreende a elaboração mítica do poder do beato, a uma outra onde ele se afigura semelhantemente ao cangaceiro como um “fora da Lei”. Desordem, superstição, loucura, perigo, ameaça passam a ser os termos através dos quais o beato é designado pelos representantes do poder constituído: “Os jornais da capital publicavam artigos dizendo que o beato estava incitando os homens do sertão à desordem, que os mais sãos princípios da civilização cristã [...] perigavam, sucumbiam naquela onda de superstição que tão rapidamente se alastrava por todo o sertão nordestino” (Amado, 1981, p. 257).
Não obstante a simpatia do narrador, o fascínio das camadas desfavorecidas e a ambigüidade que os configura nas páginas de Jorge Amado, o messianismo e o cangaço estão predestinados a sair de cena. Predomina na ótica do livro a condenação de sua forma “ineficaz” de rebeldia “pré-capitalista” (Hobsbawn, 1976). A aliança entre beatos e cangaceiros não é suficiente para evitar o extermínio das duas forças “pré-revolucionárias” representativas (embora ambiguamente) do poder de resistência à ordem coronelista: o poder do rifle e o poder da reza. Na descrição desse extermínio, o romance reescreve as cenas finais de Os sertões, de Euclides da Cunha, onde se registra a derrocada do arraial de Antônio Conselheiro pela quarta expedição do exército. Como no arraial que lhe serve de parâmetro, aqui também os derrotados têm suas cabeças degoladas e exibidas como troféus. O livro que o capitão das tropas vitoriosas resolve escrever sobre os fatos, mesmo não sendo literato, conforme esclarece ironicamente o narrador, leva o significativo título de “O Novo Canudos” (Amado, 1981, p. 266).
O texto se abre agora para uma terceira e última “vereda da salvação”: o caminho revolucionário a ser trilhado pelo “intelectual-proletário”, Juvêncio, que, segundo suas próprias palavras ingressara no partido assim como poderia ter entrado para o cangaço ou para o messianismo (Amado, 1981, p. 288-289). Entre uma e outra opção ele encontra a organização partidária e “a direção justa” para a sua rebeldia, conforme o discurso avaliatório do narrador O romance anuncia, assim, essa terceira possibilidade, contrapondo-a às anteriores: “– Agora vai se acabar os cangaceiros e os beatos... Vai ser a nossa vez” (Amado, 1981, p.331). Quem faz o vaticínio é o personagem Zé Tavares, um dos membros do partido comunista, encarregado de organizar um comitê municipal em São Paulo. O decreto do fim dessa “anomia” social da República Velha, para utilizar aqui a expressão pela qual o poder constituído enxerga a eclosão dos movimentos de rebeldia no mundo rural, é ainda decretada no romance pelo “camarada” Vitor, que assim prediz o desaparecimento desses fenômenos sociais: “Os beatos e os cangaceiros acabarão no dia que os sertanejos tiverem consciência política” (Amado, 1981, p. 334). A preparação para a ação revolucionária pressupõe, portanto, a conscientização da “classe operária”, cujo papel histórico é devidamente ressaltado por um dos líderes, numa reunião do comitê em Natal: “[...] cada companheiro deve estar [...] consciente das suas responsabilidades, do papel histórico da classe operária, e apto a enfrentar a situação” (Amado, 1981, p. 269).
A certeza tranqüilizadora em um futuro promissor via revolução é metaforizada pela mesma imagética agrícola/botânica que semantiza a ação revolucionária no final do romance: “[...] o poder estava quase nas [...] mãos, como um fruto maduro numa árvore, bastava alçar-se nas pontas dos pés e colhê-las” (Amado, 1981, p. 270-grifos nossos). O “plantio” e “a colheita” no sertão nordestino cabem a Juvêncio. Filiado ao organismo do PCB em São Paulo, participante do levante de 35 em Natal, onde se torna líder de sargentos, suboficiais e cabos, posteriormente trabalhando a serviço do partido no Rio de Janeiro, o personagem é incumbido de retornar à região de origem. A sua missão no espaço sertanejo consiste em dar continuidade ao trabalho realizado pelos correligionários em outras regiões. Os ensinamentos por ele veiculados, mecanicamente interiorizados pelo homem rústico do sertão, constituem os germens das transformações que se anunciam. A iminência da revolução dá conta da “natural” germinação da semente plantada naquela seara, cujo cromatismo do termo que a adjetiva adquire uma dupla conotação: símbolo do sangue vertido no sofrimento e na fome; símbolo da revolução socialista que vem marcar o início de uma nova vida. Sintomaticamente, essa certeza assinalada via metáfora natural guarda o mesmo teor das profecias apocalípticas do beato Esteves ao assegurar a superação dos conflitos terrestres no reino dos céus. A teleologia marxista do romance preserva, pois, a mesma dialética simplista da teleologia metafísica do messianismo, vaticinando, agora, um novo estado de ordem pela “dessacralização do mundo” (Albuquerque, 1996, p. 204). Essa teleologia revolucionária é responsável também pela “conversão” de Juvêncio, que passa de um estado de alienação, inerente à sua condição de camponês, segundo a lógica do romance, a um alto grau de conscientização política. Tal processo transformador ocorre na grande cidade (São Paulo), cuja função nos textos da fase política de Amado é, como já ficou dito atrás, servir de estágio ao fomento da revolução, mediante o ingresso do trabalhador rural numa das células da organização partidária.
Ao contrário das dubiedades que caracterizam o messianismo e o cangaço, o projeto revolucionário é unidimensional e incontestável. A caracterização idealizada de Juvêncio como líder desse processo é inteiramente unívoca. Não sofre as oscilações ideológicas que compõem o perfil do beato e do cangaceiro. A doutrinação política empreendida por ele ao trabalhador rural, quando de seu retorno, é sintomaticamente caracterizada na fala de um deles pelo campo semântico da luz projetada sobre a escuridão. “Tu aprendeu isso na capital? Tu não perdeu tempo e o que tu diz é cuma luz que alumia, abre um clarão nos olhos da gente que tava no escuro...” [sic]. (Amado, 1981, p. 334).
Reafirmando as concepções revolucionárias do escritor militante político, o desfecho de Seara vermelha projeta a sua utopia socialista sem a mediação da burguesia urbana e do proletariado industrial. Essas classes são excluídas do processo revolucionário pela necessidade que tem Jorge Amado de adequar seu “romance proletário” “a um determinado estágio de desenvolvimento das forças produtivas em que, para o autor, não se tem ainda configurado, em sua plenitude, um ‘proletariado’” (Almeida, 1979, p. 115).
Deus e o Diabo na terra do sol dramatiza os fenômenos do messianismo e do cangaço e o tema da revolução reatualizando a mesma lógica interna do romance de Jorge Amado. Isso significa que no filme os dois fenômenos também entram em cena para serem descartados como soluções “nefastas” e “inócuas” aos problemas sociais da estrutura coronelista. Em seu lugar, o filme oferece, à semelhança de Seara vermelha, uma terceira saída: a saída revolucionária.
Pode-se começar a observar essa lógica a partir do resgate da própria concepção do autor acerca dessa representação. A síntese definidora de Deus e o diabo, segundo as palavras do próprio Glauber, é a de que o filme é uma “metáfora revolucionária [...] totalizante” (Glauber apud Gerber, 1977, p. 27). Levado a explicar esta afirmação, o cineasta declara que Deus e o diabo é uma revolução da consciência “uma explosão do inconsciente do camponês do Terceiro Mundo” (Glauber apud Gerber, 1977, p. 27). A afirmação baseia-se nos pressupostos do autor decorrentes das concepções de “estética da fome” e do seu conceito de cultura popular. Ou seja, para o cineasta, os movimentos messiânicos e o cangaço são revoltas (não revoluções) populares contra a opressão, pois se constituem como manifestações alienadas e alienizantes. São rebeliões de líderes dentro de um sistema de opressão, como afirma no debate anexado ao roteiro do filme: “O beato é um rebelde metafísico, o cangaceiro é um rebelde anarquista” (Glauber, 1965, p. 128). Neste sentido, a força popular, consubstanciada pelas rebeliões dos beatos e cangaceiros, é uma força ineficaz, que não conduz à revolução. Conseqüentemente, o filme propõe uma terceira força de rebeldia capaz de ultrapassar as duas primeiras. Esta força se semantiza através do mar, metáfora da rebeldia camponesa, metáfora revolucionária: “A terceira rebeldia é o mar, que não está lá, mas está acontecendo por aí: são os camponeses. Havia um terceiro episódio, sobre a rebeldia camponesa, que não pude fazer porque a fita ia ficar enorme [...]. Acho que a solução encontrada é mais sintética, mais violenta” (Glauber, 1965, p.128).
A diegese do filme não se reduz, obviamente, a esse modelo consciente, mas também não o nega. Problematiza, em termos ficcionais, as concepções do autor, na medida em que oferece uma leitura mais complexa, portanto também ambivalente, dos aspectos em pauta. A tensão dramática pode ser sintetizada na cena da seqüência 464, onde Antônio das Mortes aparece pela segunda vez, agora em diálogo com o cego Júlio, nos escombros de Canudos, cenário da montagem cinematográfica. A fala dos dois personagens apresenta a contraposição dos valores díspares que compõem a trama narrativa. De um lado, a voz do cego, direcionada em defesa das causas populares. Do outro, Antônio das Mortes que prenuncia a revolução pela eliminação da “cegueira” metafísica que grassa no mundo rural sob a forma de Deus e o diabo:

CEGO: A culpa não é do povo, Antônio! A culpa não é do povo!
ANTÔNIO DAS MORTES: Um dia vai ter uma guerra neste sertão. . . Uma guerra grande sem a cegueira de Deus e do diabo. E, pra que essa guerra venha logo, eu, que já matei Sebastião, vou matar Corisco e depois morrer de vez, que nós somos tudo a mesma coisa! (Rocha, 1964).

As últimas palavras do matador de beatos e cangaceiros introduzem uma fratura na oposição dicotômica: estabelece uma complicadora identificação do personagem com aqueles que está predestinado a matar “nós somos tudo a mesma coisa”.
As seqüências iniciais apontam para o elemento desencadeador da intriga: o assassinato do coronel Moraes pelo seu vaqueiro Manuel, em conseqüência da morte e partilha de algumas reses do fazendeiro e a subseqüente perseguição dos jagunços do coronel ao ex-empregado, culminando com a morte da mãe deste e com a sua fuga em direção ao beato Sebastião, seu santo “salvador”. O encontro dos dois personagens e a adesão de Manuel ao misticismo ocorrem em Monte Santo onde o messias prega aos seus seguidores. Manuel entrega-se ao santo em nome da libertação do seu povo. As cenas do Monte Santo acentuam concomitantemente uma dupla imagem do santo e, por extensão, do fenômeno do messianismo: a que se oferece através da percepção dos prosélitos e a que é registrada pela câmara e pelas indicações do roteiro. No primeiro caso, tem-se uma representação que favorece o aspecto positivo do beato. Ele é a esperança de redenção para o oprimido, o anunciador de uma nova ordem para o sertão: a ordem do “santo guerreiro5 contra o dragão da maldade”, antecipando nessa configuração simbólica a imagética de outro filme do autor6. No segundo caso, registram-se os aspectos de histeria e de alienação do santo e de seus adeptos (a abstração do olhar perdido no vácuo, captada pela câmera; a imagética apocalíptica sinalizada como “alienação mística” no roteiro; os gritos dos romeiros registrados como histeria nas rubricas do cineasta e a postura de déspota claramente ressaltada pela câmera no contato do beato com os prosélitos, sobretudo com as prostitutas). Entre uma e outra representação surge a dos poderes constituídos, o padre e o fazendeiro em cujas falas registra-se a condenação do messianismo como ameaça à ordem vigente dos coronéis e ao monopólio dos bens de salvação da Igreja: o santo Sebastião estaria desviando os camponeses do trabalho e assumindo as tarefas específicas ao sacerdócio. A desmistificação maior se dá, no entanto, através de Rosa, mulher de Manoel, que põe em xeque as prédicas do beato como via alternativa de salvação, ao negar as profecias deste acerca da Ilha, espaço utópico da inversão dos papéis sociais, e desnudar o despotismo do santo.
A encenação do cangaço ocorre na segunda parte do filme, introduzida pela legenda que anuncia o encontro de Manuel com Corisco, “o diabo louro”, após o assassinato do beato por Rosa (não por Antônio das Mortes, como este faz supor em cena já transcrita). “ATÉ QUE UM DIA, PELO SIM OU PELO NÃO, SEUS CAMINHOS SE CRUZARAM COM CORISCO E LAMPIÃO...” (Rocha, 1965, p. 74).
Manuel se entrega a Corisco como se entregara ao santo Sebastião. A sua atitude de submissão diante do cangaceiro é a mesma que demonstra frente ao beato. O filme configura nesta duplicidade imagética a segunda forma de opção para a rebeldia do sertão. Rodopiando em torno de si mesmo e falando sem parar, o diabo louro condensa no filme duas representações do justiceiro vingador: Lampião, a quem incorpora após o assassinato do “rei do cangaço” em Angicos pelas tropas policiais, e São Jorge contra o dragão da maldade, numa concretização do vaticínio do santo Sebastião. A imagem do justiceiro vingador, assim como a do beato, sofre, no entanto, o mesmo processo de desmistificação. Curiosamente, é a mulher a maior encarregada desta função. Da mesma forma que Rosa não adere ao misticismo e questiona o messianismo como alternativa de salvação, Dadá, mulher de Corisco, desconstrói a imagem mítica de Lampião, atingindo-o no cerne mesmo do atributo que assegura legendariamente o reconhecimento público do “bandido social”, segundo Hosbawm (1976, p. 54): o destemor. É significativo neste sentido a seqüência 284, que antecede a cena do retrospecto de Corisco com Lampião. “Dadá: Virgolino era grande, mas também ficava pequeno” (Rocha, 1965, p. 101). Logo a seguir, a câmera gira em torno de Corisco/Lampião e a voz do cangaceiro na cena do retrospecto confirma as palavras da mulher, expondo seus temores: “Tenho medo de viver sonhando com a chuva de bala que joguei em cima do bom e do ruim. Tenho medo do inferno e das almas penadas que cortei com meu punhal. Tenho medo de ficar triste e sozinho como uma vaca berrando pro sol! Tenho medo, Cristino, tenho medo da escuridão da morte” (Glauber, 1965, p. 102).
A morte de Corisco por Antônio das Mortes, assim como a do beato Sebastião por Rosa, vem culminar o processo de derrocada das forças da permanência no âmbito rural. Postas em questão as alternativas do misticismo e do cangaço, representadas como “duas faces da mesma metafísica” (Xavier, 1983, p. 98), e cujo processo de desnudamento não se limita à esfera dos personagens, mas ocorre sobretudo no nível da narração, resta examinar a proposta revolucionária do filme.
Diferentementemente de Seara vermelha, a utopia revolucionária em Glauber Rocha não pressupõe a transição direta do estágio de subdesenvolvimento e atraso do mundo rural para a sociedade socialista. No caso de Deus e o diabo, ela é mediada pelos valores do mundo burguês, representados por Antônio das Mortes, personagem enigmático e ambíguo, cujo papel simbólico no filme é, segundo Silviano Santiago (In GARBUGLIO et al.,1987, p. 423), prefigurar a força revolucionária do tenentismo, ligada ao processo de modernização7, em conformidade com a ótica desenvolvimentista do filme. De forma menos incisiva, Jean Claude Bernardet (1978, p. 82), identifica em Antônio das Mortes as contradições e ambigüidades das classes médias urbanas, mas sem correlacioná-lo diretamente ao tenentismo. O filme fornece pistas para que se possam acatar ambas as hipóteses que, de resto, não são excludentes. Pelo papel que exerce na trama narrativa como matador de beatos e cangaceiros o personagem está, como se viu, predestinado a eliminar o atraso do sertão, representado pela metafísica de Deus e do diabo. Em vários momentos do filme ele é nomeado tenente, sua patente na polícia, mas que pode também indiciar sua ligação simbólica com o tenentismo. Embora receba soldo do fazendeiro e do padre para eliminar o santo Sebastião, tarefa que termina não cumprindo porque Rosa se antecipa a ele nesta função, Antônio das Mortes não pode ser simplesmente identificado a um jagunço ou a um matador de aluguel, papel, aliás, que recusa para si. Sua função no filme é mais complexa e pode ser resumida como sendo a de “acelerar o curso da história e precipitar o advento dessa guerra, que será a guerra de Manuel vitorioso”, conforme interpreta ainda Bernardet (1978, p. 80).
A utopia revolucionária consubstanciada pela imagética do mar invadindo a caatinga no desfecho do filme parece corroborar o projeto consciente do autor, apontando para a penetração do espaço urbano no mundo arcaico do sertão. Ou seja, pela metáfora do mar, o filme realizaria a síntese integradora entre o rural e o urbano. O mar poderia, assim, ser visto como a metáfora do progresso que adentraria o sertão, visando a superação das formas primitivas da alienação, semantizadas no texto pelo misticismo e pelo cangaço. Visto desta ótica, o filme ratificaria as profecias de Antônio Conselheiro, parafraseadas pelo beato Sebastião e pelo cangaceiro Corisco através do célebre refrão: “o sertão vai virar mar e o mar virar sertão”. Refrão retomado pela canção do cego Júlio enquanto Rosa e Manuel correm pela caatinga em direção ao mar. Os protagonistas, no entanto, não chegam lá. Rosa fica pelo caminho e Manuel continua a corrida para um destino incerto sem que se tenha a certeza do seu ponto de chegada. A descontinuidade entre a corrida de Manuel e o avanço do mar pela câmera é interpretado por Ismail Xavier como uma fratura na concepção teleológica de história que a proposta revolucionária do filme parece assumir. Conforme diz o ensaísta, “a corrida não veicula propriamente um recado didático, uma palavra de ordem definida do tipo que encontramos no final de um panfleto político [...] Nesse sentido, seu gesto, apesar de projetivo, é uma instância em plena disponibilidade” (Xavier: 1983, p. 72).
Talvez seja essa a diferença fundamental entre o filme de Glauber e o romance de Jorge Amado. Embora compartilhem, por vias diferentes, de análogo projeto de modernização do país, que pressupõe a superação do atraso e subdesenvolvimento do mundo rural, o direcionamento teleológico de Seara vermelha não problematiza o ideário político que o informa. Ao contrário dessa postura dogmática, Deus e o diabo infiltra entre as ações dos personagens e o olhar da câmera uma brecha capaz de minar as certezas ideológicas que teriam motivado a sua produção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] A edição consultada de Seara vermelha é a de 1981. Em relação a Deus e o diabo na terra do sol, o presente ensaio baseia-se tanto no filme quanto no roteiro publicado pela Civilização Brasileira, cujas alterações na cena fílmica vêm devidamente explicitadas em notas pelo próprio cineasta. Procurou-se cotejar, dentro do possível, as seqüências do roteiro com a encenação fílmica, seguindo, inclusive, a orientação das notas.
2 Ver a propósito dessa vertente FARIAS, 2006.
3 É em termos de fábula que o filme vem definido em seu subtítulo: Deus e o diabo na terra do sol (uma fábula do Nordeste). Nas discussões em torno do filme, Glauber (1965, p. 134) reafirma esse conceito, contrapondo-o ao de realismo.
4 Transcrevemos a seqüência como aparece no filme após as radicais mudanças por que passou o roteiro durante a filmagem.
5 Ver a fala de Sebastião na seqüência 10 do roteiro: “Louvado seja nosso Senhor Jesus, que enviou a espada de São Jorge... chegou com a lança da coragem e com ela vai matar o dragão” (Glauber, 1965, p. 45).
6 Isto é, o Dragão da maldade contra o santo guerreiro, 1969.
7 Sob a perspectiva do processo de modernização do país, a vertente histórica do tenentismo vem desaguar na ideologia desenvolvimentista do Regime Militar de 64, consubstanciando-se, principalmente, no chamado “milagre brasileiro”. Não é à toa , portanto, a adesão posterior de Glauber à política desenvolvimentista do Regime Militar de 64, principalmente ao governo de Golbery do Couto e Silva, conforme declara em vários textos e entrevistas. Ver a propósito as declarações de Silviano Santiago na Mesa Redonda em tono de Graciliano Ramos (GARBUGLIO et al., 1987, p. 423), apontando que sob a ótica do desenvolvimentismo – comum tanto aos projetos estéticos ideológicos de Glauber Rocha e Jorge Amado, quanto ao projeto de modernização do Brasil defendido por grande parte dos modernistas brasileiros – o cineasta em questão “tanto podia ir para o lado de Prestes quanto {...} podia ir para o lado de Golbery, porque as coisas no mundo da modernização, da industrialização estavam sendo definidas um pouco... de maneira... quase que apartidária”. A respeito das idéias políticas de Glauber consultar também REZENDE, 1986.